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Néha
ablakokat álmodok a tűzfalakra. Szabálytalanok, mint én.
📌 Mouraria - Lisboa
Eduardo Gageiro. Mouraria. Lisboa, Alfama. 1966
O Fado Fatal da Severa na Mouraria
A Mouraria, berço do Fado e repositório da alma mais crua de Lisboa, não é apenas um conjunto de ruas; é um organismo vivo, um labirinto de pedra e cal onde cada fissura nas paredes parece transpirar histórias de amores proibidos e desgraças. O ar é pesado, saturado com o cheiro a maresia do Tejo, a vinho tinto derramado e a azeitonas, um odor que se agarra à roupa e à memória. Foi neste cenário de vielas estreitas que mal deixavam passar a luz do sol, casas amontoadas que se espreguiçavam em direção ao céu e uma vida que oscilava perpétua e vertiginosamente entre a miséria abjeta e a paixão mais pura, que Maria Severa Onofriana, a Severa, teceu a sua lenda.
A sua história não é a de uma santa, nem a de uma heroína romântica forjada para o conforto da moralidade burguesa. É a história de uma mulher que viveu a vida nos seus próprios e indomáveis termos, uma figura visceral cuja beleza selvagem, fado inebriante e trágico fim a transformaram no primeiro grande mito da canção de Lisboa. A Severa encarnou o Fado antes de este se tornar uma instituição, ela era o Fado: um lamento, uma revolta e uma inevitabilidade.
A Severa era filha de uma taberneira de má reputação e de um pai cigano, uma mistura que a sociedade lisboeta via com desconfiança e fascínio. Esta herança conferia-lhe uma beleza selvagem, indomável, que desafiava os cânones pálidos e recatados da época. Os seus olhos negros e penetrantes, emoldurados por um cabelo da cor da noite sem lua, eram a sua arma e o seu fado. Os homens, sussurravam nas tabernas mais escuras, diziam que aqueles olhos tinham o feitiço do diabo, um magnetismo que lhes roubava a vontade e a razão.
Ela não era uma cantora de fado comum, uma dessas mulheres que entoavam desgostos por entre dentes cerrados. O seu canto vinha das entranhas, um grito primal que falava diretamente de desgosto, de destino e de uma fatalidade inevitável. Cantava nas tabernas escuras e fumarentas da Mouraria, onde os marinheiros de passagem, os rufiões de gola levantada e a gente da noite se reuniam para afogar as mágoas num copo de três e esquecer a dureza de uma vida que lhes era avara em sorrisos. Quando a Severa cantava, as conversas morriam, os copos paravam a meio caminho dos lábios. O seu fado era um espelho da alma colectiva da Mouraria.
O seu estatuto de lenda gótica cimentou-se não apenas no seu canto arrebatador, mas nos seus amores ilícitos e turbulentos. A Severa não se contentava com os homens da sua estirpe, com os seus pares de infortúnio. Havia nela uma ambição, um desejo de transgressão que a levava a procurar mundos que lhe eram vedados. Os seus olhos de azeviche fixaram-se em homens da alta sociedade, aristocratas entediados que frequentavam a Mouraria como quem visita outro mundo, em busca de emoções proibidas e de um exotismo que os seus salões dourados, repletos de música de câmara e conversas insossas, não ofereciam.
A Severa era a personificação do perigo e da autenticidade que faltavam nas suas vidas protegidas. Ela era o fruto proibido que a moralidade burguesa lhes impedia de provar à luz do dia.
O mais proeminente, e inevitavelmente fatal, destes amores foi com D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, o 13º Conde de Vimioso. Um homem belo, com a arrogância e o privilégio inscritos em cada gesto, rico e poderoso, que ficou irremediavelmente enfeitiçado pela voz e pela presença magnética da Severa. O seu romance era um escândalo em potência, um amor que desafiava todas as convenções sociais da Lisboa do século XIX, uma cidade estratificada e hipócrita onde cada classe social tinha o seu lugar rigidamente marcado. A relação entre um nobre de gema e uma cigana fadista da Mouraria era mais do que um caso; era quase uma revolução social.
Encontravam-se em segredo, sob o manto protector da escuridão. As vielas escuras e os becos sem saída da Mouraria, um labirinto que só os locais conheciam, eram o palco dos seus encontros apaixonados. O Conde, para não ser reconhecido e evitar a desonra pública, disfarçava-se: vestia roupas simples, um chapéu que lhe cobria o rosto, tentando misturar-se com a gente miúda do bairro. E a Severa, com o seu inconfundível lenço negro atado à cabeça, a sua postura desafiadora e o seu andar felino, guiava-o através desse labirinto de miséria e paixão até aos seus aposentos modestos.
Estes encontros, consumados em quartos humildes com cheiro a maresia, a vinho barato e a tabaco, eram a encarnação do amor proibido, um fogo que ardia com intensidade ofuscante, mas que estava, desde o primeiro olhar trocado, destinado a consumir tudo no seu caminho. Não havia futuro, apenas um presente febril.
A paixão era mútua, uma atracção de opostos, mas profundamente desigual na sua substância. Para o Conde de Vimioso, um homem acostumado a conseguir tudo o que desejava, a Severa era uma aventura exótica, uma transgressão fascinante que o libertava, nem que por algumas horas, do tédio e das obrigações da sua classe. Ela era a sua musa pagã, o seu pecado secreto. Para a Severa, contudo, o Conde representava mais do que um mero capricho carnal. Ele era a promessa, ainda que vã, de um mundo diferente, um amor que lhe conferia um estatuto, uma elevação e uma esperança de redenção social, mesmo que efémera e condenada. Ela queria acreditar que o amor puro poderia transcender as barreiras intransponíveis que a sociedade lhes impunha.
Mas o destino, essa força cega e inexorável, ou o Fado, como os locais da Mouraria preferiam chamar, tinha outros planos. A sociedade lisboeta, uma teia de hipocrisia e moralismo, não perdoava tais transgressões. Os mexericos, que começaram como murmúrios nas tabernas, transformaram-se em conversas de salão. O escândalo crescia à medida que o romance se tornava um segredo aberto, um elefante na sala da aristocracia.
A pressão sobre o jovem Conde tornou-se insuportável. A família, guardiã da honra e do património, exigiu um fim imediato para aquela loucura. D. Francisco, um homem do seu tempo, por mais que amasse a intensidade que a Severa lhe oferecia, não teve a força para desafiar o seu mundo. Começou a afastar-se, as visitas tornaram-se mais esporádicas, as desculpas mais esfarrapadas, até que cessaram por completo. A realidade, fria e dura, puxou-o de volta para a sua classe, para o seu destino de nobre.
A Severa, abandonada e com o coração despedaçado, viu o seu mundo, construído sobre a frágil esperança do amor do Conde, desabar. O seu fado, que já era melancólico, tornou-se mais triste, mais profundo, tingido de negro e de uma dor de alma que ecoava a sua desgraça. A sua voz, outrora vibrante e cheia de uma raiva controlada, transformou-se num lamento puro.
A sua saúde, já frágil pelos excessos de uma vida boémia e pelo ambiente insalubre da Mouraria, começou a deteriorar-se rapidamente. A paixão que a tinha elevado, momentaneamente, acima da sua condição social, agora esmagava-a com o peso da rejeição. A Severa definhava.
A doença, talvez tuberculose, o flagelo da época, ou talvez a dor de alma, a tristeza profunda de um amor perdido, consumiu-a rapidamente. A sua beleza mística e selvagem desvaneceu-se, dando lugar a uma palidez fantasmagórica. Morreu jovem, com apenas vinte e seis anos, em 1846, na Travessa do Capelão, num quarto humilde, longe dos luxos e dos cuidados que o seu amante aristocrata poderia ter proporcionado.
O seu funeral foi um evento gótico por excelência, um espetáculo de dor e devoção popular que a transformou de mulher em mito. Uma multidão de gente da Mouraria, marinheiros, rufiões e até alguns aristocratas disfarçados, com os rostos escondidos pelas sombras ou pelos lenços, seguiram o seu caixão modesto até ao Cemitério do Alto de São João. A lenda diz que o caixão foi transportado aos ombros dos seus admiradores mais devotos, e que o silêncio era absoluto, um tributo ensurdecedor à rainha do Fado caído, cuja voz se calara para sempre.
Após a sua morte, a lenda floresceu como uma flor negra no solo fértil da imaginação popular. A Severa não desapareceu na obscuridade da história; tornou-se imortal, o primeiro grande ícone do Fado, a sua santa profana. O seu espírito, garantem os antigos da Mouraria, nunca deixou o bairro que a viu amar e sofrer.
Nas noites de nevoeiro cerrado que sobem do Tejo e envolvem as colinas de Lisboa num manto de mistério, quando o som de uma guitarra portuguesa a chorar um fado vadio ecoa pelas vielas desertas, há quem jure ver a sua figura espectral. Com o seu inconfundível lenço negro na cabeça e a sua postura desafiadora, dizem que vagueia pelos locais dos seus encontros secretos com o Conde. Dizem que o seu fantasma procura a paz que lhe foi negada em vida, ou talvez, um último vislumbre, um último encontro com o seu amor perdido, uma reencenação eterna do seu fado fatal.
O Conde de Vimioso viveu uma vida longa e próspera, como convinha à sua posição. Casou-se com uma mulher da sua classe, teve filhos e cumpriu o seu destino social. Mas a história conta que nunca esqueceu a Severa, o seu fogo, a sua autenticidade. Ele regressou à Mouraria anos depois, um homem envelhecido e amargurado, procurando os lugares que partilharam, talvez em busca de uma emoção que nunca mais sentira. Mas a sua busca foi em vão; a Severa pertencia agora ao mito, ao Fado, à alma gótica e intemporal de Lisboa.
O fado da Severa permanece, um aviso soturno sobre os amores ilícitos que desafiam o destino, o destino cruel que espreita em cada esquina e a fatalidade que habita nas sombras da Mouraria, onde a paixão e a morte dançam um tango eterno ao som de uma guitarra portuguesa que lamenta, para sempre, um amor proibido e um trágico fim. A sua história é o próprio Fado: a aceitação melancólica de que há amores que nascem já mortos, e que a maior intensidade da vida reside, paradoxalmente, na inevitabilidade do seu próprio fim.
Mouraria
Lisboa
fotos cjmn

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Rão Kyao, Ai! Mouraria I Fado Bailado, 1983
https://www.raokyao.com/
Autor não identificado, S.Título, Procissão de Nª Sª da Saúde, Escadinhas da Saúde, Mouraria, Lisboa, 1958
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