significando o mundo interior das personagens por meio dos sonhos
Eu sempre tive dificuldade para lembrar dos meus sonhos. Os fragmentos de memórias deles que eu consigo agarrar e manter, então, ficam comigo por um bom tempo. Até que comecei a notar um padrão: vários sonhos meus giram em torno das minhas ansiedades quanto à rotina e suas burocracias. Na época do vestibular, sonhei que eu estava fazendo a redação da prova, mas não conseguia avançar na escrita dela, sempre havia algo me atrapalhando. O fator pesadelo estava na minha frustração de não conseguir progredir, no medo do tempo passando fora de meu controle e no gosto do meu fracasso iminente.
Tenho certa rigidez e detesto me atrasar, por isso já sonhei que estava no meu primeiro dia de aula numa escola nova e não conseguia achar minha sala mesmo horas depois do sinal tocar. O espaço da escola era um labirinto sem fim por onde eu vagava, pensando: o sinal tocou há muito tempo, estou perdendo aula já, estou perdendo aula há muito tempo.
Tudo isso é indicativo da minha natureza “quadrada” e do meu medo do relógio, de ficar para trás. Do mesmo jeito, nos últimos tempos, tento traduzir os conflitos internos das minhas personagens de modo que não seja dado numa bandeja; pelo contrário, é metaforizado, é uma coisa que na verdade está falando de outra. Não me proponho aqui a análises psicanalíticas ou discussões sobre o sonho em diferentes epistemologias, embora essa segunda me interesse. Me proponho, sim, a comentar os aspectos simbólicos dos sonhos das personagens e como eles se reportam a seu mundo interior, construindo suas subjetividades.
No sonho de Alaska, o medo não vem do fogo em si — embora esse seja um elemento que o assombre de certo modo e a imagem duma pessoa em chamas seja foreshadowing de coisas ainda a serem reveladas¹. O medo é de não ser ouvido, de não ser visto, mesmo enquanto está claramente em grande sofrimento. O desejo que olhem para você, entendam que está em chamas e tentem ajudar a apagar o fogo. Tendo sido um adolescente prodígio que lidava com doenças mentais enquanto orgulhava sua família e comunidade, esse é um sentimento com o qual ele era familiar. A conclusão mórbida de que ele deveria tê-los matado num incêndio é tanto irônica quanto revela por meio da raiva a dor, a revolta e o ressentimento de ter se sentido ignorado quando mais precisava. Embora o fim do sonho tenha se dissipado da memória, o fim do parágrafo evoca um senso de prolongamento a partir da imagem da fumaça subindo para o céu infinito.
A imagem de Alaska em chamas retorna também quando ele volta dos mortos; desta vez, na verdade, a construção linguística o indica como se ele aparentasse ser o fogo em si, o próprio agente vivo de destruição:
Agora, vou comentar dois sonhos de Holly.
Eu gosto desse também. É inspirado num sonho que realmente tive. Holly é uma pessoa que cresceu sufocada pela história da própria família e pela cidade Moxmouth, que representa a estagnação de sua vida e os fantasmas do passado deixados pela avó. A cidade, então, é transfigurada no armazém escuro, mas as janelas têm grades porque sair e perseguir suas ambições (fazer um curso superior, ser reconhecido como pesquisador, etc) não é tarefa fácil. Ele é cerceado por suas condições socioeconômicas, as quais são fatores determinantes na construção da personagem. Tentar encontrar brechas para escapar de sua realidade é praticamente tido como proibido. Quem tem direito a se mover? Desse modo, esse é um sonho que revela a ansiedade de Holly sobre se sentir uma pessoa presa na gaiola que é sua cidade natal, além de seus desejos e esforços de escapar dela.
Além disso, há um senso de vigilância representado na figura misteriosa que o observa no escuro, o que remonta a sua ansiedade de ser descoberto enquanto mastermind e descendente direto de Silena Summers.
A genealogia de Holly Summers volta para o assombrar em outro momento de sonho:
A goteira da casa foi recuperada também em outro momento, referindo-se ao desgosto de Holly pela infraestrutura que refletia a insuficiência de recursos de sua família. No cenário desse sonho, Holly dorme, até que, de repente, seu momento de descanso é interrompido. A água vira algo que realmente mancha, remete a violência. E ao fundo, a voz da mãe o chama e o lembra da iminência da chegada da avó. É impossível parar isso. É apenas um aviso, mas pode ganhar contornos de ameaça. O sentimento de impotência o rouba da capacidade de palavras, e Holly se vê apenas na posição de contemplar as coisas como são: uma mancha no teto, uma mancha que existe e que ele não pode alcançar.
Uma personagem minha consciente de seus próprios sonhos é Vixen. Explicitamente, ela fala que seus sonhos têm temas recorrentes, relacionados a seus medos e suas angústias:
Por outro lado, eles também significam seus desejos. De manhã, ela compartilha seus sonhos com seus colegas de quarto; um modo de se autohumanizar perante eles e partilhar os anseios com quem dorme ao lado dela. No sonho, Vixen estrutura um cenário de afeto com o Instrutor Erast, que a treinou para ser mortal, e ao mesmo tempo, desempenhou um papel paterno (distorcido, vago, mas ainda assim...) em sua trajetória.
O sonho também é lugar de fabular o que poderia ter acontecido. A incerteza de Vixen sobre ser amada ou não por Erast é reformulada e direcionada pelo seu desejo, tomando essas formas. Ela ensaia coisas que não aconteceram, porém estão emocionalmente disponíveis: o sonho consegue estreitar as relações da vida real, preencher lacunas. Poderia Erast algum dia ter feito isso de verdade, se ele tivesse dado um ou dois passos a mais?
Enfim, os sonhos ao mesmo tempo tanto me ajudam a apontar para as emoções das personagens quanto me ajudam a significá-las, no sentido de que lhes dou signos, outros modos de representá-las.
No meu miniensaio sobre saudades, vou discorrer melhor sobre a menção dos sonhos de Vixen em outras perspectivas.













