Judite e Holofernes
As tropas assĂrias do rei Nabucodonosor, lideradas pelo general Holofernes, cercam a cidade judaica de BetĂșlia, talvez na Samaria (a localização Ă© discutida, podendo mesmo ser uma cidade fictĂcia e meramente simbĂłlica) com o objetivo de a tomar de assalto.
Com fĂ© e coragem, a jovem, bela e piedosa viĂșva Judite decide agir, para salvar o seu povo. Ela e a sua serva infiltram-se no acampamento assĂrio, onde conseguem ganhar a confiança de Holofernes.
Numa noite, Holofernes convida Judite para jantar e bebe demais, atĂ© ficar embriagado e adormecer. Judite, que se mantĂ©m sĂłbria, aproveita a ocasiĂŁo para, com a espada do prĂłprio Holofernes, lhe cortar a cabeça. A facilidade com que o faz Ă©, contudo, surpreendente. NĂŁo tanto pela resistĂȘncia do general embriagado e adormecido, mas sobretudo pela dificuldade tĂ©cnica e força que o ato exige, pouco compatĂvel com uma jovem e formosa viĂșva, ainda para mais em modo silencioso, para nĂŁo chamar a atenção da guarda que seguramente defenderia os aposentos do general.
Judite e a sua serva escondem então a cabeça decapitada de Holofernes num saco e saem do acampamento, sem levantar suspeitas.
De regresso a BetĂșlia, apresentam a cabeça do general ao povo, que celebra a sua libertação. Desprovidos do seu comandante, os assĂrios levantam cerco e retiram.
Depois da grande aventura que a vĂȘ protagonista, Judite vive na sua cidade uma boa velhice, por todos admirada, atĂ© aos 105 anos de idade, um nĂșmero talismĂŁ dos eleitos de Deus, pois tambĂ©m o jĂĄ nosso conhecido Santo AntĂŁo, o eremita, morreu com a mesma idade.
Para os catĂłlicos, esta histĂłria Ă© um sĂmbolo da fĂ©, da coragem e da libertação do povo judeu, contra os seus opressores, e consta do Antigo Testamento, do Livro de Judite, um dos livros deuterocanĂłnicos, isto Ă©, canonizados posteriormente aos demais livros do Antigo Testamento, no ConcĂlio de Trento, no sĂ©culo XVI. Estes livros fazem parte da BĂblia CatĂłlica e Ortodoxa, mas nĂŁo da BĂblia Protestante, que segue o cĂąnone hebraico para o Antigo Testamento.
Judite Ă© assim um exemplo de como uma pessoa, aparentemente frĂĄgil, pode ter um papel crucial na salvação do seu povo, dependendo da fĂ© e da estratĂ©gia, nĂŁo apenas da força militar. Embora a decapitação nĂŁo seja propriamente uma tarefa ao alcance de qualquer pessoa frĂĄgil, mas antes um ato de assinalĂĄvel força e violĂȘncia.
Não admira, portanto, que tenha servido de inspiração a muitas obras de arte.
Uma das mais famosas é a de Caravaggio, pintada em 1599. Nela podemos ver a jovem Judite a decapitar Holofernes com a sua própria espada, perante o olhar cruel de uma serva, que segura um saco aberto, destinado ao transporte da cabeça do general. O quadro é bastante realista, o que terå chocado profundamente muitos espectadores da época.
Também Artemisia Gentileschi pintou uma decapitação especialmente violenta, com o general debatendo-se pela vida, com a espada enterrada no pescoço, enquanto é imobilizado pela criada de Judite.
Francisco Goya mostra apenas as duas mulheres em vias de cometer o crime, Judite de espada em riste e a criada com o saco aberto, mal se vislumbrando a cabeça de Holofernes. Jå Tintoretto, numa obra do século XVI, pintou Judite a cobrir o cadåver decapitado, enquanto a sua serva, ajoelhada, se prepara para guardar a cabeça do general num saco.
Orazio Gentileschi, em 1621, pintou apenas as duas mulheres, apreensivas, olhando em redor, enquanto introduziam a cabeça do general num saco, preparando naturalmente a fuga, de regresso Ă BetĂșlia sitiada.
O pintor brasileiro oitocentista Pedro AmĂ©rico, pintou em 1880 uma versĂŁo suave da histĂłria, com uma Judite triunfante e sensual, de braços abertos, dando graças a Deus, com a cabeça de Holofernes discretamente caĂda no chĂŁo, semicoberta pelo longo vestido da jovem judia.
Talvez a versão mais surpreendente seja a do quinhentista Lucas Cranach, o Velho, que mostra Judite principescamente vestida, em pose real, com uma espada na mão e a cabeça do general exposta à sua frente, como um troféu. Não hå sangue, Judite sorri sedutora, com um enorme chapéu de plumas, ataviada de joias e sedas, como se fosse para um baile, ou estivesse a receber homenagem pelo feito, por um séquito de observadores.
Embora por vezes apareça de seios nus (Giovanni Baglione) ou com decotes generosos e sensuais (Artemisia Gentileschi, Francesco Furini), de um modo geral a cena Ă© tratada com particular destaque Ă violĂȘncia da decapitação (Caravaggio, Artemisia Gentileschi) ou da cabeça decapitada (Tintoretto, Orazio Gentileschi, Veronese).
De certa forma Judite surge como uma anti SalomĂ©. Judite expĂ”e virtuosamente a cabeça decapitada do general assĂrio com uma exultação que contrasta com a perfĂdia com que SalomĂ© se compraz com a cabeça de SĂŁo JoĂŁo Baptista, cortada futilmente e por seu capricho, a mando do malvado rei Herodes.
Duas faces da mesma moeda, com um ato idĂȘntico e horrĂvel a ser apresentado de forma oposta, consoante a vĂtima seja um mĂĄrtir da fĂ© cristĂŁ ou um pagĂŁo. O mesmo se poderĂĄ afirmar da sensualidade feminina usada para a prĂĄtica do crime, um sacrifĂcio de fĂ© para a eleita Judite e uma obscenidade lasciva, para a descrente SalomĂ©.
Mais um mito bĂblico usado de forma recorrente desde o sĂ©culo XV atĂ© ao presente na pintura catĂłlica.
21 de Novembro de 2025

















