Derreto em tua fome
Sempre quando arrasta minha carne
Com teus dentes de diamantes
Levando a lama de amantes inferiores
Não somos irmãos, não somos semelhantes
Tampouco inimigos, tampouco desordens
A servidão em transmutada em ouroboros
Somos a mesma contínua busca por sentido
Eu sou a quentura que torna-se incêndio
O fogo além dos homens e suas máquinas
Eu sou a brasa que sente em exagero e êxtase
Todos os sentidos e sensações do teu toque impuro
Me masturbe informalmente
Me recite em todas as bocas
Beba a paráfrase de meus gemidos
Me requente entre tuas fornalhas
Verta-se em fluídos tórridos que nunca morrem
Atravessam carnes, sentidos e tecidos
São tidos como impróprio à anatomia
Podem soar afetuosos ou extremistas
Mas é de certo sempre são abafados
Por conduta livre ou sórdida
A primeira conhecida com bóson de cores
O segundo crime de muitos homens
Sorrateiro no teu silêncio
No ritmo das tuas contrações
No simbolismo das tuas entranhas
Em teu único nome que exalto
Vou me devotar em teus pés
Enquanto toma minha carne como tua
Enquanto passeias feito serpente
Eu estou no intervalo do desejo e da imaterialidade
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Peça em processo para instalação que fará parte da exposição individual "O que guarda o silêncio nas pedras", com curadoria de @erielaraujosantos. Abertura dia 23.10.2017, na Galeria Cañizares. #cerâmica #artesvisuais #procedimentosceramicos #oqueguardaosilencionaspedras #luisamagaly #contemporaryart #artecontemporânea #ceramic #art #visualart #artesvisuales #terra #anima #imaterialidade #intangível #indizível #instalação #galeriaCañizares #Salvador #Bahia #SaúdeBA #processoscriativos #mestradoemartesvisuais #PPGAV #Capes
Como uma designer que optou pelo vasto mundo dos impressos, poderia-se dizer que aprecio a materialidade dos artefatos – o que, de fato, é uma verdade incontestável. Gosto de tatear um bom acabamento verniz soft polen, amo o cheiro de livros novos e, a grosso modo, sinto a necessidade de ter um livro em minhas mãos. O que me levou, então, a comprar um e-reader mês passado, se meu amor aos livros é uma afeição, também, ao objeto do livro?
Scriptorium, literalmente “um local de escrever”, era o local de trabalho onde os monges copistas reproduziam manuscritos na Idade Média.
Sendo bem franca, a analfabetização era quase total na Idade Média e a invenção de Gutenberg não mudou a realidade dos camponeses feudais. Porém, se pensarmos a longo prazo, Gutenberg é um dos maiores contribuidores para a modernidade como a conhecemos. Com o surgimento da burguesia, centenas de anos depois, e a conquista dos ideais burgueses, como direito à educação e à propriedade, a alfabetização e a produção intelectual se tornaram bem mais abrangentes. Foi o primeiro passo para o que temos hoje – um mundo complexo de intercâmbio informacional.
Outro grande passo para a troca de informações foi o surgimento da internet na década de 90. Trocando em miúdos, a humanidade caminha rumo à globalização – nada mais do que um troca-troca a nível mundial – desde as Cruzadas, mas os últimos anos reduziram a distância da não-coisa de quilômetros a pixels na tela.
Frente ao descontrole informacional que vivemos atualmente, o livro impresso recai num debate penoso a respeito de sua existência frente às mídias digitais. Se a imaterialização de dados é algo cada vez mais certo em nosso dia-a-dia, a que passo estaremos de um mundo real feito de presenças totalmente virtuais? Qual o valor de um artefato se comparado à sua existência em bytes?
É preciso ressaltar, entretanto, que o fim de imprensa não está próximo. Não por enquanto. Revistas, jornais e livros são um mercado ainda altamente lucrativo e movem dinheiro demais para sofrerem um fim imediato.
Paralelamente a estas questões mercadológicas, vemos cada vez mais experiências gráficas visando o livro como objeto tridimensional. Muito mais do que um simples códex formado por capa e encadernação, é uma tendência o nascimento de projetos que pensam na mobilidade do livro como suporte narrativo. É o caso do livro Tree of Codes, de Jonathan Safran Foer, onde o espaço do objeto é altamente presente no modo que se constroi a história narrada.
Tree of Codes de Jonathan Safran Foer propõe uma debate sobre o espaço do livro, sua narrativa e o modo como lemos histórias. Feito a partir do recorte do conto Street of Crocodiles de Bruno Schulz, Tree of Codes é uma história formada a partir dos recortes nas páginas do livro.
Pensar no livro como um objeto tridimensional é, muitas vezes, elevá-lo a condição de objeto-arte. Alguns artistas, oriundos das artes plásticas ou do design, realizam edições limitadas ou únicas que transformam o livro num artefato de desejo e de valor inestimável. A falta da reprodução em massa, ausência da figura do cliente e a experimentação criativa aproximam um objeto cotidiano da galeria de arte.
Wanting to hold/Needing to let go (2012) é um trabalho de William Kentridge feito a partir de uma sequência de desenhos em folhas de um livro antigo, onde as ilustrações oscilam entre o campo de animação, projeto editorial e arte.
Isto tudo implica, paradoxalmente, numa relação de valorização e desvalorização do livro físico. Enquanto os usuários recorrem aos arquivos digitais, os leitores mais tradicionais permanecem no mundo da tinta impressa. São dois públicos distintos que buscam uma não-coisa (informação), mas preferem coisas (suportes) de maneiras distintas. É uma diferença aparentemente banal, mas que demonstra a sutileza da relação que temos com a imaterialidade e sua materialidade.
O folhear do e-reader não está tão distante do folhear do livro – é uma simples adaptação do suporte. A grande diferença entre os dois tipos de leitura é como são vistos e, portanto, como se relacionam com o leitor.
De uma maneira ou outra, precisamos nos adaptar às transições de formato e suporte físico. O conhecimento, a grosso modo, ainda está nos livros. Veja bem: ainda. A internet, em sua vastidão infinita e intocável, é um espaço não físico que abrange muita, muita não-coisa, mas que se mantém novata quanto à circulação informacional mais aprofundada. A transposição dos dados físicos para o mundo virtual ainda terá uma longa caminhada. Para um verdadeiro mergulho ao pensamento complexo, faz-se necessário uma atitude mais antiquada: buscar o sebo ou biblioteca mais próximos.
Até lá, transita-se entre os dois mundos. Minha pequena biblioteca e meu e-reader agradecem, enciumados. Mal sabem eles que percorrem lado a lado, por meios diferentes, a busca pela mesma não-coisa. #
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texto originalmente publicado na Revista Clichê no mês de abril.
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