Provavelmente, se eu vencer a depressão, isso não será capaz de evitar a minha morte. Digo isso com uma serenidade estranha. Talvez cada pequena vitória sobre ela apenas prolongue meus anos por mais algumas décadas. Se isso é uma bênção ou apenas mais tempo atravessando tempestades, só o tempo poderia me responder.
Existe uma diferença enorme entre continuar vivo e voltar a viver. A primeira acontece porque o coração insiste em bater; a segunda exige uma coragem que nem sempre nasce com o amanhecer. Há dias em que levantar da cama parece um ato heroico, e ninguém percebe porque os grandes combates quase sempre acontecem em silêncio.
Às vezes imagino minha mente como um laboratório abandonado. Espalhados pelo chão estão todos os experimentos que fiz tentando entender a mim mesmo: lembranças, arrependimentos, promessas e perguntas que jamais encontraram resposta. Passei tanto tempo procurando uma fórmula para consertar o que havia em mim que esqueci de aceitar que algumas cicatrizes não foram feitas para desaparecer, mas para nos lembrar de que sobrevivemos.
Talvez seja isso que me mantenha aqui. Não a certeza de que um dia tudo ficará bem, mas a possibilidade de que exista um amanhã diferente daquele que minha dor insiste em prever. E, por menor que essa possibilidade pareça, às vezes ela é suficiente para convencer um coração cansado a atravessar mais uma noite.
Nebulento.














