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Gil Vicente
O Velho da Horta
1512
I. O Despertar sob as Ramadas
O sol de maio em Lisboa não pedia licença; impunha-se. Naquela horta generosa, os primeiros raios atravessavam as ramadas de parra com a precisão de agulhas douradas, desenhando padrões geométricos no chão de terra batida e húmida. O Velho, cujo nome a história esqueceu para o elevar a arquétipo da insensatez, caminhava entre os canteiros com a lentidão de quem já não tem pressa de chegar a lugar nenhum, a não ser ao fim do dia. O cheiro era uma mistura densa de poejo, terra regada e o perfume adocicado dos frutos que amadureciam sob a vigilância das canas.
Para ele, a horta era o seu mundo, um refúgio onde o tempo parecia ter estagnado. Ali, entre as alfaces viçosas e os repolhos que se abriam como rosas verdes, ele era o senhor absoluto. No entanto, naquela manhã específica, o silêncio habitual — interrompido apenas pelo estalar dos ramos ou pelo voo baixo de um pardal — foi quebrado pelo ranger metálico e rítmico do portão de ferro.
Não foi um barulho qualquer; foi um anúncio.
Ao levantar os olhos, turvos pela idade e pelo hábito da solidão, o ancião viu a luz dobrar-se de uma forma diferente. No umbral da horta, recortada contra o clarão da rua, surgiu uma Moça. Ela não caminhava; ela deslizava, trazendo consigo uma vitalidade que parecia insultuosa perante a decrepitude dos muros e do próprio dono daquelas terras. O seu vestido, simples mas impecavelmente ajustado, movia-se com a brisa, e o seu rosto possuía aquela clareza de traços que só a juventude, em toda a sua arrogância biológica, consegue ostentar.
O Velho sentiu um impacto no peito, uma arritmia que não sentia há décadas. Foi como se as raízes das suas árvores tivessem subitamente subido pelas suas pernas, prendendo-o ao solo, enquanto a sua mente, outrora focada no preço do sésamo e na rega dos nabos, se perdia num labirinto de adjetivos esquecidos.
— "Deus vos salve, honrado senhor", disse ela, e a voz era como o som da água corrente num regueiro de pedras limpas. "Vim em busca de hortaliças para a mesa de minha casa."
O ancião não respondeu de imediato. A sua boca abriu-se, mas as palavras tropeçaram na língua seca. O que ele via não era uma cliente; era uma epifania. Naquele instante, o juízo — esse velho companheiro de barbas brancas — saltou-lhe pela janela da alma, deixando o lugar vago para o delírio. Ele não via apenas uma moça; via a primavera encarnada, um desafio à sua própria mortalidade.
— "Hortaliças?", conseguiu ele finalmente articular, com uma voz que oscilava entre o sussurro e o tremor. "Nesta horta, minha senhora, não há legumes que se comparem à flor que acaba de brotar no meu portão. O que procurais? Alfaces? Elas murcham de inveja perante a vossa tez. Melões? São amargos se comparados à doçura que imagino nos vossos lábios."
A Moça, habituada aos olhares cobiçosos da vila mas surpresa com a intensidade poética (e patética) daquele ancião, arqueou uma sobrancelha. O riso começou a dançar-lhe nos olhos, não um riso de alegria, mas de escárnio contido. Para ela, aquele homem era apenas uma relíquia do passado que decidira, subitamente, desempenhar o papel de trovador.
O Velho, porém, estava cego para o sarcasmo. Começou a deambular pela horta, arrancando ervas sem critério, oferecendo-lhe tudo e nada ao mesmo tempo. Cada passo dele era um esforço físico, mas ele sentia-se leve como um mancebo de vinte anos. A sua memória resgatava fragmentos de cantigas de amigo, versos de palácio que ouvira na juventude, e despejava-os sobre a rapariga como se fossem pétalas.
— "Vedes este pomar? Tudo é vosso", exclamava ele, gesticulando para as árvores que eram o seu sustento e o seu orgulho. "Se me derdes apenas um olhar que não seja de gelo, transformarei estas terras num paraíso onde nunca haverá inverno."
A rapariga deu um passo atrás. O sol, agora mais alto, revelava as rugas profundas no rosto do homem, a pele que pendia como pergaminho antigo sob o queixo e as mãos trémulas que manuseavam a enxada com uma fragilidade perigosa. O contraste era cruel. A beleza dela era um espelho que devolvia ao velho a imagem da sua própria ruína, mas ele, em vez de desviar o olhar, mergulhava cada vez mais fundo na imagem refletida.
O hortelão, que costumava auxiliá-lo, estava ausente na feira, deixando o caminho livre para que a loucura do patrão florescesse sem o freio da razão alheia. O Velho aproximou-se da Moça, o cheiro a terra e a mofo da sua roupa chocando contra o perfume a alfazema que emanava dela. Ele tentou tocar-lhe na mão, um gesto vacilante que parecia o de uma ave ferida a tentar levantar voo.
— "Não me negueis a vossa presença", implorou ele, as palavras já carregadas de um sentimentalismo tóxico. "O meu ouro, a minha horta, o meu descanso... dou-vos tudo em troca de uma esperança."
A jovem soltou uma gargalhada curta e seca, um som que cortou a atmosfera bucólica como uma lâmina de aço.
— "O que eu quero, meu senhor, são as couves e as cebolas. O vosso ouro guardai-o para a vossa mortalha, e a vossa horta para o vosso sustento. Não sou flor que se colha com mãos tão cansadas."
Ela virou as costas para recolher o cesto que deixara no chão, mas o Velho, em vez de se ofender, interpretou a rejeição como um desafio galante. No seu juízo obscurecido, o "não" dela era apenas um adorno da virtude que ele precisava de conquistar. Ele ficou a observá-la enquanto ela se afastava entre os canteiros, a silhueta recortada pelo sol, sem perceber que, naquele exato momento, ele acabava de semear na sua própria horta a semente da sua destruição financeira e moral.
A manhã, que começara com a promessa de uma colheita farta, terminava com o início de uma fome que nenhum legume poderia saciar: a fome de um passado que já não lhe pertencia.
II. O Riso e a Esquiva
A Moça permanecia imóvel junto ao poço, observando o ancião com uma mistura de incredulidade e entretenimento cruel. Para ela, aquele cenário não era uma tragédia romântica, mas uma comédia de costumes representada por um ator que se esquecera de consultar o espelho antes de subir ao palco. O Velho, recuperando o fôlego que a emoção e a idade lhe roubavam, aproximou-se novamente, os olhos brilhando com uma lucidez febril que beirava o delírio.
— "Não te vás assim, luz dos meus olhos mofinos", suplicou ele, estendendo as mãos nodosas como se tentasse agarrar os raios de sol que dançavam no cabelo dela. "Sentes este ar? Até as macieiras se curvam para te saudar. Se souberes ouvir o que dizem estas ramadas, entenderás que este velho coração ainda bate com a força de um cavalo de guerra quando te vê passar."
A jovem soltou um suspiro teatral e cruzou os braços sobre o peito. A sua postura era de uma segurança absoluta, a confiança de quem sabe que detém o único capital que realmente importa naquela transação: o tempo.
— "Senhor hortelão, ou senhor da horta, ou seja lá o que o vosso espelho vos diz que sois pela manhã", começou ela, com uma voz carregada de um sarcasmo refinado, "guardai as vossas metáforas para as vossas couves. O vosso coração pode bater como um cavalo, mas o resto do corpo parece mais um burro cansado que pede a estrebaria. Falais de amor como se tivésseis vinte anos, mas cheirais a cânfora e a terra de cemitério."
O insulto, em vez de o afastar, pareceu servir de combustível. O Velho estava naquele estado de embriaguez emocional onde a razão é vista como um obstáculo à glória. Ele começou a caminhar em círculos ao redor dela, uma dança trôpega que pretendia ser uma corte galante, mas que apenas levantava a poeira seca do caminho.
— "O corpo é apenas a casca da fruta!", exclamou ele, gesticulando para um pessegueiro próximo. "Por fora, a pele pode estar rugosa, mas por dentro corre o sumo mais doce que a vida pode oferecer. Eu tenho posses, menina. Tenho casas, tenho gado, tenho o respeito da vila... e tudo isso deitarei aos teus pés se me deres um único beijo que me devolva a alma."
A Moça desatou a rir. Não era um riso discreto; era uma gargalhada aberta, sonora, que ecoava pelas paredes de pedra da horta e parecia fazer estremecer as próprias plantas.
— "Um beijo? Por todos os santos, prefiro beijar a face fria de uma estátua de mármore! Pelo menos a estátua não tem hálito de vinho velho nem tenta recitar versos que já caducaram no século passado. Olhai para vós, senhor. As vossas pernas tremem como varas verdes ao vento. Se eu aceitasse o vosso amor, teria de passar os dias a dar-vos caldos de galinha e a aquecer-vos os pés com tijolos quentes. Eu busco um homem que me faça perder o fôlego no baile, não um que perca o fôlego a subir três degraus."
Cada palavra dela era um golpe de enxada na dignidade do ancião. No entanto, o desejo nele era uma planta parasita que se alimentava de qualquer resquício de atenção, mesmo que fosse o desprezo. Ele aproximou-se mais um pouco, desafiando a zona de conforto da rapariga. O seu olhar buscava nos olhos dela uma faísca de piedade que pudesse ser confundida com afeto.
— "Tu és jovem e cruel, como todas as coisas belas", murmurou ele, a voz agora mais baixa, tentando imbuí-la de uma gravidade trágica. "Mas a juventude é um orvalho que seca antes do meio-dia. Um dia, também tu procurarás o calor de um fogo que te proteja do frio da solidão. O meu amor não é o fogo de palha dos mancebos que te rondam; é uma brasa lenta, que arde com a substância de quem já viu o mundo."
— "E que viu tanto mundo que se esqueceu de como sair dele com honra", retorquiu ela, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. "Vossa brasa lenta não passa de cinza que teima em não apagar. Se quereis tanto dar-me algo, dai-me as cebolas que vim buscar e deixai-me ir para onde a vida pulsa de verdade. Há um rapaz na praça que me espera, e ele não fala de orvalho nem de brasas; ele apenas me faz rir sem que eu sinta pena dele."
O Velho sentiu a pontada da inveja — esse veneno que amarga o sangue dos que envelhecem sem aceitar o ciclo. A menção ao rapaz da praça foi como sal numa ferida aberta. Ele tentou agarrar-lhe o braço, um gesto desesperado e patético, mas ela esquivou-se com a agilidade de uma gazela, deixando-o a abraçar o ar.
— "Não me toques!", avisou ela, o tom mudando subitamente do sarcasmo para a autoridade gélida. "A vossa mão parece a pele de um lagarto morto. Se insistirdes nesta loucura, gritarei de tal forma que toda a vizinhança saberá que o respeitável dono desta horta perdeu o siso e a decência. Quereis ser a anedota das tabernas? Quereis que as crianças vos apontem o dedo quando passardes na rua?"
Ele recuou, ofegante. O esforço da discussão e a humilhação começavam a cobrar o seu preço físico. O suor frio escorria-lhe pelas fontes, e o coração, que ele dizia bater como um cavalo, agora parecia um pássaro encurralado numa gaiola de costelas. Ele olhou em redor da sua horta, o lugar que sempre fora o seu reino, e sentiu-se, pela primeira vez, um estrangeiro em terra própria.
A Moça, percebendo que ganhara o embate, retomou o seu cesto. Ela caminhou em direção à saída, mas antes de atravessar o portão, parou e olhou para trás. O Velho estava ali parado, entre os tomateiros, uma figura curvada e cinzenta contra o verde vibrante da natureza.
— "Um conselho, senhor: usai o vosso ouro para comprar uma boa capa de lã para o inverno que se aproxima, pois para o calor que desejais, já não tendes lenha nem lume. E, da próxima vez que uma moça entrar aqui, vendei-lhe os legumes e guardai os vossos sonhos para os vossos travesseiros."
Ela partiu, o som dos seus passos diminuindo até desaparecer no burburinho da rua. O Velho ficou em silêncio, cercado pela indiferença das suas plantas. O sol continuava a brilhar, as abelhas continuavam o seu trabalho, mas algo tinha mudado irremediavelmente. Ele não aceitaria a derrota; a sua vaidade, agora ferida de morte, exigia uma reparação que a realidade não podia dar. Foi nesse vazio, nesse silêncio amargo da horta, que o nome de Branca Gil começou a ecoar na sua mente como uma promessa de milagre.
III. A Teia de Branca Gil
O caminho que levava da luz solar da horta até ao cubículo sombrio de Branca Gil era mais do que uma travessia geográfica; era uma descida moral. O Velho, envolto numa capa que pretendia esconder a sua identidade mas que apenas acentuava a sua figura furtiva, caminhava pelas vielas estreitas de Lisboa. O cheiro a maresia misturava-se com o fumo das lareiras e o odor acre dos curtumes. A sua mente, outrora límpida como a água dos seus tanques, estava agora turva, povoada pela imagem da Moça e pelas promessas de um impossível retorno à juventude.
Ao bater à porta de Branca Gil, o som ecoou como um veredito. A porta abriu-se rangendo, revelando uma mulher cujos olhos pareciam ter visto todos os segredos da cidade e decidido que nenhum deles merecia respeito. Branca Gil não era apenas uma alcoviteira; era uma tecelã de ilusões, uma alquimista que transformava o desespero alheio em moedas de ouro para o seu próprio bolso.
— "Entrai, senhor, entrai", sibilou ela, com uma voz que tinha a textura do veludo gasto. "Não precisais de dizer nada. O vosso rosto traz escrita a doença que nenhuma botica consegue curar. É amor, não é? Ou, pelo menos, aquilo a que os homens da vossa idade chamam amor."
O interior da casa era um labirinto de sombras. Ramos de ervas secas pendiam do teto, e o ar estava saturado com o cheiro de incenso barato e sebo. O Velho sentou-se num banco de madeira, sentindo-se pequeno sob o olhar analítico daquela mulher. Ela circulava ao seu redor como um tubarão que sente o sangue na água, avaliando não o seu sofrimento, mas o peso da sua bolsa.
— "Ela é jovem, não é?", continuou Branca, sem esperar resposta. "Pele de seda, olhos de gazela e um coração que ri da vossa dor. Eu conheço o tipo. Elas pensam que o mundo lhes pertence porque têm o tempo a seu favor. Mas esquecem-se de que eu domino as forças que o tempo não controla."
O Velho, com as mãos entrelaçadas sobre o cabo da bengala, levantou os olhos suplicantes.
— "Dizem que tendes artes, Branca. Dizem que as vossas palavras podem abrir portas trancadas e que as vossas ervas podem mudar o curso do querer. Eu daria metade da minha horta, daria as minhas pratas e as minhas sedas, se pudesses fazer com que aquela moça olhasse para mim sem nojo."
Branca Gil soltou um risinho seco, abafado pela mão.
— "Meia horta é pouco para um milagre desse calibre, meu bom senhor. Mas a vossa dor toca-me o coração... e as vossas pratas tocam-me a vontade. O que vós pedis exige orações especiais, invocações a santas que não se dão com qualquer um, e, claro, certos 'mimos' para colocar nas mãos certas. A moça tem pais, tem irmãos, tem a própria vaidade. Tudo isso são fechaduras que pedem chaves de ouro."
O Velho, num ímpeto de generosidade nascida da loucura, retirou uma bolsa pesada de sob a capa e depositou-a sobre a mesa manchada. O som das moedas batendo na madeira foi a música mais doce que Branca ouvira naquela semana. Ela não tocou na bolsa imediatamente, mantendo a fachada de quem está acima das preocupações materiais, mas as suas pupilas dilataram-se.
— "Isto servirá para começar", disse ela, a voz tornando-se subitamente mais solícita. "Vou tecer uma rede de palavras que a cercará. Vou falar-lhe da vossa nobreza, da vossa generosidade, de como um homem da vossa estirpe é preferível a dez mancebos sem eira nem beira que só sabem gastar o que não têm. Vou dizer-lhe que o amor de um velho é como um castelo de pedra: seguro e eterno, enquanto o dos jovens é uma tenda de lona que o primeiro vento de inverno derruba."
O Velho bebia aquelas palavras como se fossem um elixir de rejuvenescimento. Ele queria acreditar. Precisava de acreditar que o dinheiro poderia comprar a biologia e que Branca Gil era a sua fada madrinha, e não o seu carrasco financeiro.
— "Irás vê-la hoje?", perguntou ele, a ansiedade tremendo-lhe na voz.
— "Hoje mesmo, logo que o sol se ponha", mentiu Branca com a facilidade de quem respira. "Vou levar-lhe um presente da vossa parte, algo que abra o caminho. Mas lembrai-vos: a virtude dela é uma fortaleza alta. Precisaremos de muitos presentes, de muitas visitas e de muita paciência. E, claro, de mais fundos para manter as engrenagens lubrificadas."
A partir desse momento, estabeleceu-se um contrato faustiano. O Velho voltaria à sua horta para esperar por notícias que nunca seriam verdadeiras, e Branca Gil passaria os seus dias a arquitetar relatos de progressos imaginários. Ela falaria de suspiros que a moça nunca deu, de olhares que ela nunca lançou em direção à horta e de uma "suavização" de caráter que era pura invenção.
Enquanto o Velho saía da casa, sentindo-se mais leve (não de alma, mas de bolso), Branca Gil observava-o pela fresta da janela. Ela não sentia pena. Para ela, aquele homem era apenas mais um dos muitos que tentavam lutar contra a natureza e que, no processo, financiavam a sua sobrevivência. Ela sabia que a justiça humana e a divina poderiam um dia bater à sua porta, mas, por enquanto, o ouro do Velho brilhava mais do que qualquer medo do inferno.
O Velho caminhava de volta, já imaginando a horta decorada para receber a sua amada, sem perceber que cada passo que dava o afastava da realidade e o aproximava do abismo da miséria. Ele era agora uma marioneta nas mãos de uma mestra que conhecia perfeitamente quais fios puxar para o fazer dançar conforme a música da sua ganância.
IV. A Miragem da Conquista
A horta, que outrora fora um modelo de ordem e abundância, era agora o espelho do espírito do seu dono: um lugar de abandono camuflado por uma falsa esperança. O Velho já não via as ervas daninhas que sufocavam os seus canteiros, nem reparava que os frutos apodreciam nos ramos por falta de mãos que os colhessem. Para ele, cada árvore era agora um suporte para os seus devaneios e cada recanto do terreno um palco onde imaginava o encontro definitivo com a sua amada.
O tempo, esse juiz implacável que ele tentava subornar com moedas, passava com uma rapidez cruel. Branca Gil tornara-se uma presença quase diária, uma sombra que trazia consigo o oxigénio de que ele precisava para continuar a respirar: a mentira. Ela chegava com o rosto composto por uma gravidade ensaiada, suspirando de cansaço para justificar as dificuldades de uma "negociação" que nunca existira.
— "Ah, meu bom senhor!", exclamava a alcoviteira, sentando-se num banco de pedra e abanando-se com a mão gordurosa. "Se soubésseis as léguas que os meus pés caminharam e as palavras que a minha língua gastou para vos defender! A moça é como um diamante bruto: dura por fora, mas sinto que a vossa persistência está a começar a lapidá-la."
O Velho aproximava-se, trémulo, os olhos ávidos de quem busca uma migalha de dignidade no lixo da falsidade.
— "Diz-me, Branca, por tua vida! Ela perguntou por mim? Ela mencionou o meu nome sem aquele riso que me corta as carnes?"
— "Mencionar?", retorquia ela, com um brilho de rapina nos olhos. "Ontem mesmo, ao pôr do sol, ela olhou na direção desta horta e disse, com um suspiro que parecia vir do fundo da alma: 'Quem me dera que todos os homens tivessem a constância e a generosidade daquele nobre senhor'. Mas, ai de mim, senhor... ela queixou-se de que a sua família a pressiona para um casamento com um jovem cavaleiro, a menos que ela possa provar que o seu 'protetor' é homem de bens capazes de sustentar um palácio."
Era a senha. O Velho, sem hesitar, dirigia-se ao seu cofre, agora cada vez mais leve. Peças de prata que pertenciam à sua linhagem, joias que tinham sido da sua falecida esposa, e os últimos sacos de moedas de ouro eram entregues à mediadora. Ele já não raciocinava em termos de valor; para ele, o ouro era apenas o combustível necessário para manter acesa a miragem que Branca Gil projetava à sua frente.
A sua fazenda definhava. O gado fora vendido para pagar "presentes" que nunca chegariam às mãos da Moça. As casas de aluguer que possuía na vila estavam hipotecadas. O homem que fora um pilar da comunidade era agora um esqueleto financeiro, caminhando entre as ruínas do seu próprio império. Os vizinhos observavam de longe, sussurrando sobre a loucura senil que o acometera, mas ninguém se atrevia a intervir; a loucura de amor, especialmente quando acompanhada de riqueza, é um espetáculo que a sociedade prefere observar em silêncio.
No seu isolamento, o Velho passava horas a compor cantigas. A sua voz, outrora firme, era agora um fio de som que se perdia entre as parras. Ele cantava para as paredes, para os pássaros e para a imagem mental que criara da jovem. Na sua cabeça, ela já não era a rapariga sarcástica que o humilhara sob o sol de maio; era uma figura etérea, uma musa que esperava apenas pelo "momento certo" para se entregar.
Branca Gil, por seu lado, vivia uma idade de ouro à custa da senilidade alheia. Frequentava as tabernas e as lojas de tecidos finos, ostentando uma riqueza que todos desconfiavam de onde vinha, mas que ninguém questionava frontalmente. Ela era a mestre do "quase". A conquista estava "quase" garantida; o beijo estava "quase" prometido; o casamento estava "quase" acordado. Esse "quase" era o espaço infinito onde ela operava a sua magia de extorsão.
Certa tarde, o Velho, já debilitado pela falta de alimento (pois preferia dar o dinheiro a Branca do que comprar pão), tentou vestir as suas melhores roupas de gala. O tecido de veludo estava roído pelas traças e pendia-lhe no corpo magro como uma pele que já não lhe pertencia. Ele olhou-se no espelho — um fragmento de vidro que ainda restava — e não viu o ancião decrépito. Viu um noivo.
— "Hoje será o dia, Branca?", perguntou ele quando a alcoviteira apareceu para a sua colheita diária.
— "O dia está próximo, senhor, tão próximo que quase o posso tocar", respondeu ela, estendendo a mão para receber mais um anel de sinete. "Mas a moça precisa de um último sinal de vossa grandeza. Ela viu uma seda vinda do Oriente na feira... se ela a tivesse nos ombros, sentir-se-ia uma rainha pronta para entrar neste reino."
E assim, o último pedaço de terra produtiva foi empenhado. O Velho já não tinha horta; tinha apenas um deserto de poeira e memórias falsas. Ele sentava-se à sombra de uma figueira seca, esperando por uma rainha que nunca viria, enquanto Branca Gil, sentindo que o poço estava a secar, já começava a planear o seu desaparecimento daquela cena.
A miragem estava no seu auge. O brilho do sol sobre a terra nua parecia-lhe ouro, e o vento nas folhas secas parecia o sussurro de um vestido de seda. O Velho estava feliz na sua miséria, pois a mentira de Branca Gil era mais confortável do que a verdade do seu espelho. Ele era o rei de nada, o amante de ninguém, o dono de um vazio que custara uma fortuna.
V. O Açoite e a Realidade
O sol que outrora dourava as alfaces da horta agora batia implacável sobre o empedrado da praça pública, onde a poeira e a expectativa flutuavam no ar pesado. O silêncio da horta fora substituído pelo burburinho da multidão, esse monstro de mil cabeças que se alimenta tanto de pão como de desgraça alheia. No centro deste palco de pedra, a realidade preparava-se para rasgar, de forma sangrenta, a miragem que sustentara os últimos meses do ancião.
Branca Gil não entrou na praça com a altivez de quem manipula o destino. Entrou arrastada, com os pulsos atados e as costas nuas oferecidas ao julgamento dos homens e de Deus. A justiça da época, rápida e ruidosa, não fora clemente com as suas artes de "vender ventos". O ouro do Velho, que ela gastara em sedas e vinhos, não pudera subornar o braço do carrasco. Ao seu lado, o oficial de justiça lia a sentença em voz alta, uma ladainha de crimes que incluía a alcovitaria, o engano e a feitiçaria menor — nomes legais para a rede de mentiras que ela tecera sob as ramadas da horta.
A cada chicotada que descia sobre as costas da mulher, a multidão soltava um rugido de aprovação. Era um espetáculo catártico: a punição daquela que personificava a corrupção do espírito. Branca, que sempre tivera uma resposta pronta e um riso sarcástico, agora só emitia sons guturais de dor. A sua dignidade de manipuladora caía ao chão juntamente com o seu sangue, misturando-se com a lama da rua.
Num canto da praça, quase invisível entre os corpos jovens e robustos dos curiosos, encontrava-se o Velho.
Ele não parecia o dono de terras de outrora. Estava envolto em farrapos que mal recordavam a sua antiga nobreza. A sua pele, agora de uma palidez cadavérica, parecia transparente sob a luz do meio-dia. Ele observava o açoite com olhos esbugalhados, mas não via apenas o castigo de Branca; via a execução das suas próprias ilusões. Cada golpe que a alcoviteira recebia era, para ele, a confirmação de que os suspiros, os olhares e as promessas da Moça nunca tinham existido fora da boca mentirosa daquela mulher.
— "Onde está a seda?", murmurou ele, a voz perdida no ruído dos açoites. "Onde estão as palavras de amor que me vendeste por tanto ouro?"
A lucidez, essa convidada tardia e indesejada, entrou-lhe pela mente como um vento gelado. Ele percebeu, finalmente, que não fora um amante trágico, mas uma anedota viva. A sua fortuna desaparecera no abismo da vaidade. As casas, o gado, a horta — tudo fora sacrificado no altar de um desejo que a natureza já lhe negara há décadas. O Velho sentiu o peso real dos seus anos; não era a maturidade de um carvalho, mas a fragilidade de uma folha seca pronta a ser esmagada.
Enquanto Branca Gil era levada, desfalecida e marcada para sempre pelo ferro da infâmia, o Velho arrastou os pés de volta ao que restava do seu domínio.
Ao chegar ao portão da horta, encontrou-o escancarado e fora dos gonzos. Já não havia hortelão para o receber, nem canteiros de sésamo para admirar. O terreno estava nu, a terra gretada pela sede e pelo descuido. No meio daquela desolação, viu uma figura que se aproximava pela estrada: era a Moça.
Desta vez, ela não vinha buscar legumes. Vinha acompanhada por um jovem de ombros largos e passo firme — o seu marido, o tal rapaz da praça que ela mencionara meses antes. Eles caminhavam com a confiança de quem tem a vida inteira pela frente, ignorando a figura decrépita que os observava de trás de um muro em ruínas.
A Moça parou por um instante e olhou para a horta. Viu o Velho e, por um segundo, os seus olhos cruzaram-se. Não havia ódio no olhar dela, nem sequer o sarcasmo de outrora. Havia algo muito pior: a indiferença total. Para ela, aquele homem era apenas uma parte da paisagem árida, um destroço de um tempo que já não lhe dizia respeito. Ela riu de uma piada que o marido lhe contou ao ouvido e seguiu caminho, o som da sua alegria desaparecendo na curva da estrada.
O Velho deixou-se cair sobre a terra seca. Agarrou um punhado de pó e deixou-o escorrer entre os dedos, tal como o seu ouro e a sua vida tinham escorrido. Ele não tinha nada. Nem a riqueza que lhe dera importância, nem a beleza que lhe dera esperança, nem a dignidade que lhe restaria se tivesse aceitado o seu tempo com honra.
— "Ó horta!", exclamou ele, num lamento que Gil Vicente imortalizou como o símbolo da insensatez humana. "Mal haja quem em ti confia, e mal haja quem na velhice se esquece de que o sol de maio já não brilha para quem tem o inverno nos ossos."
Ele ficou ali, sob a sombra da figueira que já não dava frutos, até que o sol se pôs e as sombras da noite engoliram a sua horta deserta. O ciclo estava completo. A farsa terminara não com um aplauso, mas com o silêncio pesado de quem descobre que a maior mentira não foi a que Branca Gil contou, mas a que ele próprio decidiu acreditar para não ter de enfrentar a solidão do fim.
Y si el AMOR igual que la FELICIDAD , solo fuese una maldita ilusión , tal vez la vida dolería menos ...
A EUROPA É UMA FARSA!
A EUROPA NÃO TEM AMOR A CAMISA!
A EUROPA NAO É SUPERIOR, DEVEM DESEMPINAR O NARIZ!
A CHAMPIONS LEAGUE É PURA FARSA MIDIÁTICA!
LOS PIBES DE SUDAMÉRICA CARALHO!!!!!! GIGANTES.
OBRIGADO, BOTAFOGO. PSG, FRANÇA, EUROPA SÃO MEU SACO! SON LO CARAJO!
TODA SULAMÉRICA TREMEU!
Dictadura celebra “triunfo” con centros vacíos y votos fantasmas
En un episodio más del teatro electoral al estilo del PSUV, el CNE —con Elvis Amoroso como maestro de ceremonias— anunció entre aplausos y cifras infladas lo que llamaron una “jornada exitosa” este domingo 25 de mayo, en unas elecciones que más bien parecieron una obra de ciencia ficción: participación del 42,63%, según ellos, en centros donde hasta las palomas se aburrían de no ver…

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Carta a un poeta de cartón
Firmada por quien no te aplaude.
Mira, muchacho. No sé qué esperabas encontrar entre mujeres que aún huelen a poesía y heridas sin cerrar. Tal vez creíste que con un puñado de frases en latín y tres metáforas a medio cocer podías hacerte pasar por alma atormentada, por artista maldito, por ese personaje que tanto te gusta interpretar frente al espejo, mientras acaricias tu vanidad como si fuera talento. No lo tienes. Ni talento, ni cojones, ni alma. Tienes estilo, eso sí. Del tipo que brilla como el oro falso en los escaparates de los necios. Y público, claro. Porque siempre habrá quien aplauda al encantador de corazones ingenuos, al bufón disfrazado de caballero oscuro. Eres el tipo de hombre que se cree profundo porque escribe bonito su cobardía. Pero ¿sabes qué te jode, aunque no lo digas? Que hubo una que no te creyó del todo. Una que te miró con los ojos bien abiertos y aún así te ofreció su centro. Y esa mujer te desbordó. Porque no era musa, era espejo. Y tú no soportas verte sin el humo. Te gusta seducir hasta que alguien ve la grieta. Y entonces huyes. Porque no eres alquimista: eres humo, ruido de letras, una sombra con aires de dios menor. Y ahora te queda escribir como si nadie supiera, mientras ella calla sabiendo todo. Y tú lo sabes. Así que deja de hablar de alquimia, de disciplina, de poesía. Tú no escribes con sangre. Tú citas lo que otros vivieron. Y te escondes tras símbolos porque no tienes el valor de escribirte a ti mismo. Y si te duele, aguántate. Firmado, quien no necesita firmar con nombre, porque ya te lo dijeron con mirada. ✠ La Dame de l’Ombre🜃 Fragmento de Cartas a un sinvergüenza ©️ La Mujer del Dragón
Por HELENA PONTES DOS SANTOS: Do 12 ao 13 de Maio: a farsa da abolição que nunca acabou – como o racismo estrutural mantém negras e negros s
La farsa
Raccontare davvero una vita, sia la propria che quella di chiunque altro è pressoché impossibile. Per quanti particolari si possano descrivere, con quanta accuratezza si possa procedere, i ritratti, i profili, saranno sempre approssimativi. Ciò che in genere si riporta sono le impressioni, le sensazioni, gli accadimenti superficiali, ma per quel che concerne le circostanze più intime, interiori,…
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