⟨ ❝ D A I S Y K I N G S L E Y ❞
KINGSLEY, Daisy: Pisciana, estudante da Universidade de Eufala e vocalista da banda X. Sempre escuta de seus colegas que poderia facilmente se passar por Willa Fitzgerald.
Não há, em toda cidade, que não conheça Holliday Kingsley. Nascida e criada em Eufaula, Holliday era famosa por ser uma cristã irrepreensível, um verdadeiro pilar da comunidade, engajada em ações humanitárias, ser membro do coral da igreja, organizadora das quermesses e festivais locais e é claro, filha do pastor. Pelo menos era assim que ela gostava de ver a si mesma, já que em seu armário havia mais esqueletos do que se poderia imaginar. Por baixo de todo o cabelo loiro de uma boa sulista, Holliday na verdade era dada a muitos pecados, como o da maledicência, injuria, e usar o nome do Todo Poderoso em vão e a blasfêmia… Ela gostava de julgar todos em sua volta, se colocando acima de todos os “pecadores” daquela cidade… Durante a adolescência, Holliday se divertia escrevendo no jornal da escola sobre a banda BlackBox e todas as suas influencias “demoníacas” e como todas as pessoas que os acompanhavam iria arder no inferno, amém. Não foi uma surpresa que ela havia reunido da cidade seguidores fieis tanto quanto inimigos jurados. Mas isso não importava para o herdeiro do petróleo recém-chegado de Dallas se mudou, Vincent Kingsley, se mostrava bonito, rico e o mais importante cristão o suficiente para Holliday e sem muitas delongas, os dois haviam casado com a maior pompa e circunstancia que a cidade já vira.
Como esperado de uma boa senhora casada, os dois trataram de providenciar os herdeiros e foi com alegria que o primogênito tivesse sido Joshua. Holliday agora estava tão entusiasmada com a ideia de que finalmente havia entrado no clube seleto de mulheres casadas e mães de família que não muito tempo depois, nasceu Daisy. Daisy era uma criança quieta, tão diferente dos rompantes escandalosos da mãe. Mal chorava e desde muito pequena demonstrava no olhar uma maturidade quase assustadora. Ela adorava música, e enquanto o irmão mais novo causava um verdadeiro caos na mansão, Daisy podia passar horas ouvindo Loretta Lynn, Johnny Cash, James Taylor e outros clássicos do country no escritório do pai, aonde desenhava embaixo da mesa enquanto ele trabalhava. A pequena Kinsgley parecia ter herdado o temperamento sereno do pai, mas a agilidade de pensamento da mãe, já que era esperta demais para a sua idade… E foi assim, com apenas seis anos de idade e depois de quase cinquenta pequenas coroas com títulos de Supreme Maxima que Daisy bateu o pé e se recusou a participar os infindáveis concursos de beleza que Holliday a levava desde que era um bebê e começou aulas de música. Era visível a decepção da mãe, afinal nada mais tradicional do que concursos de beleza, mas pelo menos, com a devoção que a menina tinha pela música, Holliday ainda tinha esperanças de que ela seguisse seus passos no caminho do Serviço Sagrado.
Por um tempo, as orações da mãe foram atendidas. Daisy cantava e tocava no coral da igreja e parecia se importar genuinamente quando acompanhava a mãe nos trabalhos voluntários… Mas foi apenas até a menina entrar na adolescência e desenvolver os próprios interesses. Determinadas e bastante disciplinada, Daisy desenvolveu amor por seriados de TV, chegando até mesmo a se fantasiar como uma oficial da lei. O pai tentava canalizar esse interesse para que ela se tornasse uma advogada, uma profissão mais distinta do que uma mera policial… Mas ela era teimosa o suficiente para não desistir tão facilmente. Foi quando, ao adentrar o segundo grau, os planos da loira perdessem um pouco a força. Conheceu os filhos dos tão temidos membros da antiga banda da cidade, e a esse ponto Daisy já amava música para respeitá-la em todas as formas que viessem… A paixão pelos instrumentos os uniu, relevando – ao menos por hora - as diferenças de criação entre eles. Dennis, Valerie não pareciam tão ruins quanto a mãe fazia parecer, principalmente Dennis que era gentil e engraçado com ela, mesmo que a Holliday não perdesse uma oportunidade de destratar os mais novos amigos da filha. Apesar de todo o drama da matriarca, eles decidiram começar uma banda que era bastante promissora. No entanto, Daisy não podia negar suas raízes… Era teimosa, controladora e obcecada demais com o futuro para apenas se permitir viver, como os amigos pareciam fazer tão bem. Daisy tinha ambições, aspirações para além de Eufaula. Tinha sonhos e encarava a banda apenas como um passa tempo, embora quando ensaiavam a loira tinha a sensação de que poderia fazer aquilo para sempre. Ela sentia como se estivesse dividida, entre uma versão leve e descompromissada com os amigos e a menina diligente que a mãe havia se esforçado tanto para criar. Resta saber qual lado a pequena Kinsgley irá escolher.
CANON
Nome do personagem: Daisy Kingsley Tem alguma trama em mente para ele?: Tenho várias, de verdade. Pra mim, a Daisy se divide muito entre a pessoa que os outros desejam que seja (ou seja, a mãe, o pai, mesmo o irmão) e a pessoa que ela realmente é. Sinto que esse será um ponto crucial no decorrer do desenvolvimento dela; chegar à verdadeira Daisy, à pessoa que ela deveria ser antes de qualquer influência externa, ainda que estas sejam de imprescindível valor para formá-la. De toda forma, eu pretendo desenvolver também, caso seja possível – porque né… – a trama da banda e mesmo os medos da Kingsley no que tange ao futuro, à carreira que ela pretende seguir e à própria vocação, longe de qualquer influência. Na minha cabeça, a Daisy simplesmente quer sair de Eufaula, ainda que tenha raízes bem arraigadas na cidade; quer escapar da mão que continua sufocando ela, mesmo que não perceba – e é esse um dos motivos pelos quais ela pretende fazer algo fora de lá, mesmo do Alabama. Falei com a Lex já sobre isso, mas também pensei em unir o útil ao agradável quanto à Holliday, entendem? Ela não seria totalmente parecida com a mãe – na real, nem vai chegar perto disso –, mas seria interessante, talvez, se em algumas ocasiões ela soltasse algumas pérolas que apenas Mamãe Kingsley poderia soltar – culpem a criação rija da mulher, já que filha de peixe, peixinho é. De toda forma, Daisy é uma personagem que pode ser muito bem trabalhada, aprofundada e interessante; espero que esses pequenos headcanons sejam suficientes, mas qualquer coisa vocês também podem pedir mais que eu sem problema dou.
Turno demonstrativo:
Pedaços de cristal brilhavam em meio à abadia deserta, ainda que as luzes iluminassem o ambiente, deixando-o com um aspecto um tanto quanto mágico. A loira não parou para pensar muito na aparência em si —— não podia dizer que era a maior das estetas de Eufaula, de toda forma —— mas os olhos brilharam ao encarar os cristais, os braços esticados no intuito de tocar os pedaços com uma ânsia quase pueril. A pouca altura em nada lhe importava; era meramente uma criança banguela sem a verdadeira dimensão do motivo da abadia estar tão iluminada e decorada daquela forma. Os olhos se voltaram, depois de algum tempo, para o altar, longe demais para que pudesse enxergar, e então o local estava completamente cheio de pessoas, todas vestidas à caráter. Entre o século XVII e XIX, os vestidos e os trajes não mudavam muito, e logo não havia mais sequer um pingo de mágica no que tangia à abadia. Parecia opressivo, enegrecido e monocromático —— como a fita de um antigo filme que Daisy alugara, anos antes, para um trabalho de escola —— e apenas a menção às palavras foi suficiente para piorar as reações da Kingsley. O sufoco não parecia deixa-la, tampouco a falta de ar, e a loira se viu dessa vez buscando o pescoço no intuito de arrancar à força o que quer que a prendesse daquela forma. Fato era que o mundo passou a girar, e os olhos se fecharam debilmente quando o oxigênio deixou de ser devidamente irrigado em seu cérebro, incapaz de manter-se sã por nem ao menos alguns segundos a mais. Todos pareciam prestar atenção, cochichando entre si palavras desconexas, e novamente a loira fora levada a um estado de estupor tão grande que tornou tudo pior, ao seu ver.
Então tudo parou. Daisy não viu mais nada, não sentiu mais nada. Os olhos abertos não mais encaravam a abadia monocromática, mas a mais negra e profunda escuridão. Correu, mais do que suas pernas aguentavam —— já estava farta de algo tão ilógico, tão longínquo do que esperaria de uma visita à abadia ——, mas não parecia o suficiente, vez que não parecia chegar a lugar algum. Os olhos faiscaram, débeis, enquanto a loira gritava ao máximo volume dos pulmões por um socorro que, sabia, não viria tão cedo. Encolhida em uma bola, a filha de Holliday Kingsley era um mero espelho do que um dia já fora, do que pretendia nunca mais ser. Medrosa, problemática e exígua quanto aos próprios demônios, Daisy não demonstrava aquele aspecto de si há tanto que sequer se lembrava como chegara ao ponto. Algo parecia ter mudado em si, contudo, no momento em que a mulher passou a brilhar, emitindo uma luz que cegaria qualquer um a medida em que avistava a escuridão ao seu redor. Não passava do escuro, um escuro tão denso e forte que a impedira de tomar a ajuda própria.
Estava de volta à abadia, mas dessa vez não mais no início do caminho. Próxima ao altar, um homem sem rosto a esperava, pacientemente, ainda que a Kingsley pudesse notar os vincos na testa. Estava irritado. Franziu o cenho em resposta, sem entender qual era o propósito daquilo tudo, e então virou o rosto para os bancos, buscando um olhar que, de todas as coisas no mundo, sempre conseguira acalmá-la. Não o encontrou, mas, ao virar o rosto novamente, meramente sentiu o cabelo ser puxado com tamanha violência que fora incapaz mesmo de gritar pelos primeiros segundos. Foi só quando o homem brandiu a faca afiada, passando-a pelo pescoço, que a loira enfim acordou, o grito que o sonho não lhe provera sendo dessa vez concebido pelas próprias cordas vocais. A respiração descompassada e as lágrimas aos olhos meramente corroboravam o que tudo aquilo fora. Um pesadelo.
Estavam ficando cada vez mais frequentes, e Daisy não sabia o que fazer com isso.
As mãos foram imediatamente às cobertas, agarrando-as com uma violência doentia a medida em que as afastava de si, incapaz de voltar a dormir após aquilo. Pongo, seu maltês, não tardou a latir, mordendo a coberta com certa selvageria e se jogando em cima da dona com algum tipo de instinto protetor. Deus sabia como Daisy precisava de proteção. Ela podia até mesmo sentir a lâmina sobre o pescoço, cortando a carne frágil com mais facilidade do que gostaria de admitir. Abraçando as pernas, não fora uma verdadeira surpresa quando a mãe e o pai apareceram, portando um spray de pimenta e um taco de baseball, respectivamente. Era óbvio que pensaram que alguém tinha invadido o quarto da menininha brilhante que tiveram, ao menos na cabeça deles, mas aquilo não poderia chegar nem perto do que acabara de acontecer. De certa forma, sentia como se a cabeça tivesse sido violada, mas meramente assentiu quando o pai se aproximara, abraçando-a levemente a medida em que Daisy deixava as lágrimas escorrerem. Céus, ela já deveria ter se acostumado com aquele tipo de coisa. Convivia com os pesadelos noturnos —— mesmo com os diurnos, se fosse sincera —— desde pequena. Por que ainda se sentia extremamente frágil quando ocorriam?
Os olhos faiscaram na direção da janela, a luz conhecida ao longe trazendo um certo amargor à garganta. Lembrara-se, em meio à inquietação, do motivo do sonho. Amanhã seria o dia. Subitamente, desejou poder voltar ao pesadelo, mas ele já parecia ter cumprido com a sua função. Assim que os pais saíram do seu quarto, a loira tentou voltar a dormir, mas, fosse por conta de Pongo, fosse por sua própria ansiedade iníqua, acabou por encarar o teto pelo restante da noite, incapaz mesmo de pegar um dos muitos livros de anatomia que deveria ler para a semana seguinte, tamanha a desconcentração.















