Estalagem
Então no meio de tanta tempestade, cansado de tomar chuva, encharcado até os ossos, exausto… Lá estava eu: No escuro, deturpado, perturbado, com medo e molhado. Então depois de tanto perrengue eu me sequei, e no meio da incessante chuva eu fiz um abrigo de pau-a-pique; simples, pacato e com goteiras, mas sobretudo, seguro. Fiz o abrigo para qualquer aventureiro que quisesse pernoitar e estivesse molhado até os ossos igual outrora eu estive.
A ideia era simples: Ninguém precisa se molhar, e eu vou ajudar quem eu puder, pois sei a sensação, já tive febre por causa dessa chuva. Então eu comecei a recebê-los de portas abertas em meu maltrapilho recinto rústico. Cedia-lhes sempre o melhor lugar na frente da fogueira quente, e quando a situação era crítica, beirando uma hipotermia eu os abraçava como se minha vida dependesse disso. Fiz diversos tipos de sopas e guisados quentes pra agradar meus hóspedes, e com o tempo, com a ajuda daqueles que realmente apreciavam minha hospitalidade eu transformei o lugar: De um simples amontoado de gravetos úmidos empilhados na pressa, o lugar tornara-se uma grande estalagem de dois andares: Uma grande estalagem no meio do nada, num lugar onde nunca parava de chover.
Os viajantes eram diversos: Altos, magros, gordos, ricos, pobres. E todos chegavam do mesmo jeito: Terrivelmente molhados e com uma tristeza irracional e sincera, como aquela que temos quando está chovendo e queremos brincar no jardim. Todos, sem exceção chegaram precisando de algo. Alguns ficavam dias, outros semanas, e alguns ficavam até mesmo meses. Mas só os que caíam nas graças do estalajadeiro – no caso, eu – ficavam anos. Tantas pessoas diferentes ali reunidas com um único objetivo: Fugir da chuva que encharcava o mundo e as ideias do lado de fora.
Não havia nada mais gratificante na vida do estalajadeiro do que fazer algo por aqueles pobres viajantes que passavam por aquela árdua chuva de lamentos e decepções que ele próprio outrora superara. Não havia nada mais prazeroso, nada mais grandioso do que aquilo. O altruísmo o renovava, o dava forças: O altruísmo – e só ele – fazia o ciclo do amor girar; fazia a estalagem crescer, as pessoas a se secarem, e estimulava aos viajantes construírem mais portos-seguros por aquela terra isolada e inóspita. Mas alguns, alguns raros indivíduos… Estes enganavam a visão e o coração aguçado do estalajadeiro. Estes entravam não para continuar com o ciclo de reciprocidade, mas para saciar seus anseios, abusar da hospitalidade dele. Comer, beber e principalmente: Aquecer-se em seu coração. E quando alguma regra não era respeitada - Não pise no tapete com as botas sujas; não implique com o gato; respeite os outros hóspedes; não tente apagar o calor da lareira… - e o estalajadeiro alertava-os, eles mostravam suas garras. Diversas vezes puxaram punhais e tentaram ter a coisas a força. Ou, na melhor das hipóteses, saiam eles com a cara fechada, fazendo desfeita da hospitalidade. E se tem algo que o estalajadeiro odeia esse algo é ingratidão.
Para esses que a hospitalidade era só um ato egoísta, uma oportunidade de se aquecer sem compromisso. Para esses o estalajadeiro deu-lhes apenas sua pena. Pena por não beneficiarem-se de um ato nobre, pena por não verem o altruísmo, pena por serem mesquinhos. Pena… Mas nunca deixavam de sair sem machucar o anfitrião: Arranhões no assoalho, cusparadas no fogo, machadadas nas vigas, vandalismo nos quartos… E muitas vezes até algum soco gratuito na face do sorridente do estalajadeiro.
Meu objetivo com esse lugar é abrigar as pessoas que precisam secar-se da chuva de lamentos, decepções e maldizeres do mundo lá fora, e o sonho é que no futuro, quem se abrigou também passe a acolher, num ciclo eterno de amor ao próximo.
A estalagem é o meu coração.
Por Aluado.















