OS OLHOS ESVERDEADOS, PELA PRIMEIRA VEZ EM TANTOS ANOS, PARECIAM VAZIOS. Encarando o nada, os orbes claros ostentavam uma concentração ilustre percebida somente quando o médico estava em uma cirurgia. Desta vez, era diferente. Poderia não ser por causa do demônio de ter a vida de alguém dependendo de si, mas era por causa dos demônios em sua mente. O da culpa, principalmente. O pior que alguém poderia ter de enfrentar. Aquele que começava corroer por dentro aos poucos, matando cada parte do seu ser até só restasse dor e sofrimento. Eles se foram. Seus únicos bens preciosos estavam mortos.
A veste negra tão incomum cobria o corpo do rapaz; a camiseta com as mangas compridas, que agora se encontravam arregaçadas, nada fazia para lhe proteger do frio daquela manhã nublada, cinzenta e sem vida. Assim como eles.
Mesmo que continuassem a dizer que não, Leviathan se culpava. Era seu trabalho saber que não era seguro, que não deveria ter confiado que ficariam bem naquele protesto … mas havia falhado com seus bens mais significativos. Uma falha que custou as vidas daqueles que tanto amava. Debaixo de sete pés, jaziam os memoriais já que, por causa da explosão, nem teria o direito de sepultar, de se despedir. Quando descobriu sobre a vida e a causa que os amados apoiava, Levi jurou para si mesmo que iria protegê-los de tudo. Mas, claramente, não fez o suficiente. Se não conseguia proteger aqueles que amava, então era vão, de nada servia.
Se a sociedade estava sucumbindo nas garras da pobreza, porque ele é quem tinha que perder aqueles que o valor era inestimável? A dor que sentia, Leviathan não conseguia colocar em palavras, mas de uma coisa tinha certeza e poderia afirmar: queria ter sido ele no lugar dos dois.
Mas um breve pigarro foi ouvido atrás de si e ele virou-se para ver seu irmão segurando uma pequena criatura no colo. Sua filha. A jovem Louise era ali o único presente que o mantinha agora vivo, que lhe dava razões para continuar a lutar a cada dia que se passava; ela dependia de si e, mesmo não sabendo se ela era de fato sua ou de Lúcio, a criança servia agora como um presente enviado por Deus para que ele nunca esquecesse do amor ao qual compartilhou com as duas pessoas mais importantes em sua vida. A menininha parecendo sentir a angústia do pai, esticou a mão pequenininha e lhe tocou o queixo claramente querendo o acalentar. Isso lhe arrancou um soluço baixo. O mesmo gesto foi repetido tantas vezes por Liesel quando ele chegava entristecido em casa por causa de algum paciente. A semelhança entre as duas, por mais que a bebê no seu colo não tenha mais do que sete meses, era inegável. Ela não entendia o porquê do pai estar daquela forma, mas, quando estivesse mais velha, iria ouvir sobre as aventuras vividas pelos seus pais. Dentre os amigos, Louise seria com certeza a única a poder dizer que tinha dois pais e uma mãe que se amavam tão profundamente.
Um suspiro baixo escapou por entre os lábios ressecados. Aquele era o fim. Já não havia ninguém mais ao seu redor, somente Louise. A garotinha em seus braços se aconchegava querendo escapar do frio e ele sabia que a mesma estaria ao seu lado para sempre, mas ele não a merecia. As lágrimas finalmente começaram a cair pelo rosto pálido, manchando a pele branca que mais parecia porcelana. Liesel e Lúcio se foram. Ele nunca teria a chance de ver seu namorado com aquele belo sorriso ou a namorada com os olhos que mais lhe pareciam como duas esmeraldas. Leviathan foi um fracasso como protetor de seus amados. E pela primeira vez em muito tempo, o homem permitiu-se chorar como uma criança, como aquela que estava em seus braços.
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