Histórias de educadores e sua luta por inclusão
(Reprodução: Freepink/Banco Livre)
Quando um professor entra em uma sala de aula, pronto para começar mais um dia de trabalho, ele não se depara com os mesmos tipos de desafios e uma rotina cômoda, que se repete a cada dia sem novas surpresas. Pelo contrário. São 20, 30, ou até mais de 30, quando falamos de centros educacionais públicos, de indivíduos que necessitam de olhares e propostas únicas. Ao pensarmos em uma educação inclusiva, não há separação alguma de todas essas demandas.
Para Simone Gomes, professora da educação primária em escolas municipais de Suzano, cidade de São Paulo, é preciso ser feito um trabalho amplo para que de fato se possa incluir a todos no ambiente escolar.
“Quando se fala em educação inclusiva já pensamos nas crianças com deficiência, mas esquecemos que todos os outros também precisam ser incluídos. O ato da equidade vai além dos muros da escola, mas de certa forma começa lá. Dificilmente há um ambiente melhor para se trabalhar a inclusão do que a escola. Na escola todos se tornam iguais por ter as mesmas vivências e não por serem iguais nas habilidades somente ou nas condições sociais. A educação inclusiva deve ser também uma educação integral, livre de preconceitos e de abismos entre os alunos e os conteúdos do currículo.”, ressalta ela.
No entanto, os desafios encontrados são muitos. Por falta de uma melhor estrutura que deveria ser oferecida pelo governo brasileiro, profissionais da educação precisam constantemente se reinventar para superar as barreiras que surgem à frente. Rose Bin, professora intérprete de Libras, e que dá aulas para EJA (Educação de Jovens Adultos), no município de Ferraz de Vasconcelos, relata já ter se deparado com situações inacreditáveis.
“Uma vez, cheguei para dar aula para o EJA em uma escola e me apresentei como intérprete de Libras. Ninguém lá sabia porque eu estava naquele lugar, e eu então me apresentei novamente e contei que havia um aluno surdo, que precisava ser assistido. Ninguém sabia que ele era surdo. Quando foram checar no prontuário, descobriram na hora. Durante todo o tempo em que eu ainda não tinha chegado, eles achavam que o aluno era só quieto, que não respondia a chamada por vergonha. Quando eu cumprimentei ele com a linguagem de sinais, pude ver o olhar dele mudando na hora, com alívio.”
Sob diferentes perspectivas e um leque vasto de abordagens e formas de ensinar, professoras do ensino público do Brasil se deparam com um caminho que engloba cuidado, atenção e muito aprendizado. Cláudia Clemente, que dá aula para crianças no sistema público do bairro Cidade Tiradentes, também em São Paulo, conta com carinho como o tempo com um aluno em questão a modificou como pessoa e profissional.
“Tive um aluno com hidrocefalia, que tempo depois acabou perdendo boa parte da visão. Acompanhei ele durante quatro anos, vi ele saindo do ensino primário e entrando para o fundamental. Cada limitação deixada para trás era uma vitória não só para ele, mas para mim também. Costumo dizer que eu aprendi com ele, da mesma forma que ele aprendeu comigo. Coisas assim nos remoldam como profissionais, nos marcam profundamente.”
Todas elas, mesmo que de locais e cotidianos diferentes, conversam entre si sobre como a educação inclusiva é um processo mútuo, que ensina a todos, não apenas aos alunos que possuem algum tipo de deficiência. Ao contrário do que Milton Ribeiro, ministro da educação No Brasil, alegou em sua fala, que declarava que alunos PCDs podiam “atrapalhar” outras crianças, essas professoras mostram que a resposta é absolutamente o oposto: na verdade, elas ajudam a todos, que se desenvolvem sob um olhar que não deixa ninguém de fora. Exatamente como deveria ser.
Por equipe Vidas (Extra)Ordinárias