Eu sou boa em fugir porque foi o que ele fez. Eu era uma criança solitária mesmo com alguém pra brincar. Sempre dava voltas e me sentia fora do lugar. Veja, pequeno pássaro, carregamos tanta dor aqui dentro. Eu a escondi de você, do mundo, até de mim por muito tempo. E eu nunca soube desabafar. Eu a empurro, escondo e finjo que não vai mais me assombrar. Falar com você aliviava esses momentos. Mas você também se calou, e eu voltei a ficar azul. As pessoas sempre levavam o que mais lhes agradava em mim e ignoravam completamente o resto, e eu aprendi que mostrar somente as melhores partes era o ideal, o certo. E então você viu, mas em seguida desviou o olhar. E eu senti, naquele exato momento, que todas essas partes de mim poderiam se estilhaçar. Eu ainda era pequena, mas eu me lembro. Do sentimento de me sentir tão incompreendida que poderia ser carregada ali mesmo, pelas folhas, pelo vento. Tive que correr e encontrar algo pra me apoiar. Acontece que me apoiei na escuridão e, quando me atrevo a olhar, é um borrão escuro. E vai sempre estar lá.












