Antes de mais nada: se você não concorda com as opiniões aqui expressas, não se sinta ofendido. Nem tampouco tente silenciar a página. Também esqueça bruxaria. Magia do Caos. Esoterismo. Ocultismo. Isso não diz respeito a nada disso. Estamos falando de paganismo germânico, Heathenry, agora. O que outros grupos praticam não interessa.
É meio compreensível se analisando a história do ressurgimento do paganismo que o fato de se fixar a uma única tradição pareça, inicialmente, estranho. Vivemos ouvindo o mantra de que não existem fontes e informações o suficiente, o que até está correto, se estamos falando de língua portuguesa. Por isso a necessidade de cada heathen se dedicar ao inglês (eu era péssimo nisso dois anos atrás, hoje leio razoavelmente bem, o esforço vale muito a pena, pelo que aprendemos do idioma e do paganismo). Além disso, é necessário se somar o fato de que o surgimento do paganismo a partir das ideias da Wicca de Gardner, não tinha a ideia de ser o reavivamento, a reconstrução de uma tradição do passado, mas a criação de uma nova religião, daí o termo "neopaganismo". O corpus cultural do mundo, à disposição da modernidade, servia como mercado de ideias de onde se pega o que quer e se recusa o que não quer. Onde termos são compreendidos um através do outro através das culturas. Na verdade nenhuma dessas ideias era entendida com profundidade, mas pega-se o 'geral', o 'comum' que há entre elas.
Isso começou a mudar com o surgimento da Seax Wicca, uma vertente que visava não apenas ser um quebra-cabeças de religiões do mundo todo, mas focar-se na tradição de bruxaria anglo-saxã. Lembrando que até esse momento paganismo e bruxaria eram quase sinônimos. A partir da Seax Wicca, mais uma fração surge, e a primeira que não se identifica claramente como wiccan, nos anos 70. Ela é o theodismo. O theodismo segue a mesma linha de alguns movimentos voltados a paganismo de povos germânicos (esteja certo que por 'germânicos' você esteja entendendo todo o corpo de povos que vai do norte da Islândia ao sul da Áustria), como a Ásatrú, que é recuperar a religião de um povo específico. Mas, diferente da Ásatrú de Sveinbjörn Beinteinsson, o objetivo do theodismo não era ser uma religião neopagã, e sim um 'retro-heathenismo', no sentido de voltar às raízes pagãs de maneira mais radical, entendendo a religião como apenas uma parte de algo mais complexo, do qual não podia ser separado facilmente, e sem desfiguração do aspecto que chamamos religioso. Com a iniciativa de Gárman Lord, e posteriormente de Eric Wódening, o theodismo visava a recriação do aspecto social, cultura, forma de pensar dos anglo-saxões.
Como podemos ver, Ásatrú e theodismo então rompem mais radicalmente com a ideia da Wicca gardneriana de ser uma religião eclética, e se focam de uma maneira um pouco mais objetiva na reconstrução de uma tradição específica: o theodismo para os anglo-saxões, a Ásatrú, para os islandeses.
Mas a história é complexa. Ásatrú acaba se confundindo com um termo genérico para qualquer paganismo de origem germânica -- muitos querendo dizer que inclusive o que os antigos praticavam era Ásatrú, o que discordo. Ásatrú e odinismo acabam muitas vezes sendo sinônimos, o que não é bem o caso, se olharmos as origens dos grupos que se chamam odinistas e dos que se chamam de ásatrú(ares). Ásatrú é apenas uma das vertentes do paganismo germânico, mas na prática não é nada focado na Islândia, ao menos para as pessoas que se dizem praticar a Ásatrú fora de lá. Eostre, por exemplo, é uma deusa amplamente lembrada na Ásatrú moderna, mas é uma deusa anglo-saxã, em última análise germânica ocidental, e não dos germânicos do norte (os escandinavos e islandeses).
Mas, qual a razão de se dedicar a uma tradição de forma exclusiva? Isso significa que um reconstrucionista não pode ler absolutamente nada de outras tradições? Não é exatamente isso.
A ideia central do reconstrucionismo é analisar os "porquês", além dos "comos" da religião. Ou seja, diferentemente do que muitos acreditam, reconstruir uma tradição do passado não é meramente mimese, ou seja, repetir receitas de bolo do passado. É entender a razão de porque as coisas são feitas. Por exemplo: a Suécia celebra o Midsommar no meio do ano. Mas lá o verão começa no meio do ano. Se você entende o "como", você celebra o Midsommar em Junho, se você entende o "porquê", você o celebra em dezembro. Fiz questão de pegar esse exemplo pois ele mostra que reconstruir não é essencialmente copiar. Além disso, os reconstrucionistas em geral se apegam a um período específico, e um local específico. Ou seja, alguns tentam reconstruir a religião da Islândia da Era Viking, outros de tribos de germânicos continentais no período de imigração, outros dos visigodos, outros dos anglo-saxões dos séculos V-VII, outros dos saxões continentais no século IX, e por aí vai. Eu particularmente durante um tempo inclusive tive uma abordagem "pan-germânica", reconstruindo uma tradição que era baseada nas informações que podia obter de todos os povos germânicos.
Mas é também importante ter em conta que o reconstrucionismo é diferente do recriacionismo histórico, ou reenactment. O reconstrucionismo, ao passo que visa reconstruir a religião, visa também reconstruir a forma de pensar, a sociabilidade dos povos germânicos, em geral, ou em um local ou tempo específico, ou seja, ele é prioritariamente voltado à cultura intelectual dos povos. Já o reenactment é voltado à recriação de vestimentas, alimentos, habitações, ferramentas, técnicas, enfim, à recriação da cultura material de determinado período. Eles possuem pontos de contato, mas não são iguais. Muitos reenactors não são pagãos, e o grosso dos pagãos reconstrucionistas também não são reenactors.
Mas, qual a necessidade disso tudo, no Brasil, nos dias atuais? Infelizmente, algumas pessoas de outras religiões neopagãs não compreendem e nem aceitam o fato de outros pagãos quererem se focar em uma tradição específica, num recorte delimitado no espaço e no tempo, como defendemos. Na verdade, eles não se esforçam pra entender nossas razões, e a ironia e sarcasmo povoa as conversas, quando não a oposição abertamente fundamentalista. Se você for um reconstrucionista e tentar apresentar suas ideias, você será ou ignorado ou combatido. Isso cansa, e foi isso que levou a desgastes públicos.
O paganismo germânico do Brasil está muito misturado com ocultismo, misticismo, Wicca e outras coisas. Longe de dizer que isso é bom ou ruim, só alerto pra dificuldade que isso gera quando dizemos que, por partir da análise específica dos povos germânicos, chegamos à conclusões abertamente divergentes sobre espírito, espiritualidade, religião, crença, divindades, mundo, destino, vida após a morte, e a lista segue. Que nossas conclusões não são modulares, não podem ser importadas pra sistemas alheios, porque só fazem sentido dentro do contexto em que estão inseridas. Que ao descolar os deuses germânicos disso e juntar com outras tradições, você pegou uma pequena parcela, e não se permitiu conhecer o todo, e a maneira que era considerada comum de se relacionar com o mundo divino dos povos germânicos.
Isso porque a visão de mundo dos povos tribais germânicos não era ocidental, era vastamente diferente da que temos hoje, a qual os próprios germânicos adquiriram posteriormente, que é romanizada, ocidentalizada. Eles tinha regras de pensamento diferente. Por exemplo, seu futuro não estava nas mãos dos deuses, mas da wyrd. Wyrd é um conceito essencial pros povos germânicos, raramente compreendido e sempre posto em segundo plano. Se as pessoas compreendessem innangarðr e útangarðr, sessenta porcento das discussões teriam diminuído, porque entenderiam que apenas apresentamos a visão de nosso grupo, e não estamos falando pela Ásatrú ou paganismo germânico em geral. E nosso grupo é reconstrucionista, focado em visão de mundo, e dedicado especificamente aos povos germânicos.
Isso não significa que não temos contato com outras culturas. Sobre seiðr, por exemplo, recorri muito aos saami e povos siberianos, uma vez que historicamente, as práticas escandinavas são influenciadas por eles. Sobre culto ancestral quase tudo se perdeu, e o mais similar que temos às práticas familiares, provavelmente sejam os chineses e o confucionismo. Sobre animismo eu recorri fortemente à antropologia dos povos tribais nativos da América, em especial da América do Sul. Tudo isso pois esses elementos da visão de mundo dos antigos germânicos praticamente se perderam completamente e não fornecem o suficiente para uma prática efetiva. Ou seja, o uso das fontes foi objetivando reconstruir algo germânico sobre o qual restaram menções, resquícios, mas praticamente se perdeu. Não para inserir conceitos e noções que não tenham origem no todo.
Sobre divindades especificamente, há exemplos de trocas, de divindades estrangeiras sendo adotadas pelos germânicos. O problema é que essas divindades são claramente germanizadas, inseridas no contexto de visão de mundo e religião deles. Eu mesmo conversava com um colega que respeito bastante sobre a deusa/orisha africana Oshun, e sua possível incorporação nas minhas práticas. Ninguém aqui defende uma prática cegamente pura.
Wyrd e ørlǫg, culto ancestral, culto aos vættir e landvættir, reciprocidade e troca de presentes, honra (tribal), sorte (tribal), reputação, mæġen, innangarðr e útangarðr, todos esses conceitos e mais outros era essenciais na visão de mundo pagã dos antigos povos tribais germânicos. Se nos propomos a recriar suas tradições e forma de pensar, sua religião o mais próximo possível de seu contexto nativo, e não apenas a praticar aquilo que a sociedade ocidental cristianizada nos ensinou sobre o que significa 'religião', vemos que é bem pouco necessário a importação de conceitos e panteões externos, já que sobrou um corpus relativamente completo para uma prática moderna.
Hoje em dia o Heathenismo ou Heathenry possui diversas subnomenclaturas como forn siðr, fyrnsidu, e o theodismo não é mais o único movimento de reconstrução do paganismo anglo-saxão e nem a Ásatrú do paganismo escandinavo. Existem também grupos theodistas dedicados à reconstrução de frísios, visigodos, normandos, etc. A religião está rasurada, mas não completamente destruída. Ela pode ser recuperada. Há várias lições que para serem entendidas precisam desse contexto nativo. O passado não pode nem deve ser recuperado de maneira integral, mas entendido, e então o reconstrucionista o usa a partir da seguinte pergunta: se o cristianismo e a sociedade ocidental urbana e romanizada NÃO tivessem destruído a religião e modo de vida tribal dos povos germânicos, como eles viveriam hoje?
É isso que nós, reconstrucionistas, buscamos responder com nossa prática e reconstrução da visão de mundo tribal germânica. Lembrando que esse texto é sobre Heathenry, e não sobre qualquer outra forma de prática, seja mágica, espiritual ou religiosa.












