não precisa se desculpar por ir embora e crescer
sempre quis você me olhasse igual sustenta o olhar para as catedrais góticas: sem nunca desviar ou se distrair.
e também, quis secretamente que você se orgulhasse das minhas conquistas com o mesmo entusiasmo que fala sobre a turnê do oasis ou sobre o monólogo final de curtindo a vida adoidado — como se fosse a melhor coisa que você já presenciou.
e isso nunca aconteceu. nem vai, não é?
mas acho que até eu falhei em sentir todas essas coisas por mim mesma. gastei um tempo absurdo rindo de piadas que não tinham a menor graça, me rodeando de pessoas que não tinham nem consciência de classe e investindo num sonho que deixou de ser meu.
abracei tantas versões do que eu poderia ser por medo de nunca ser o suficiente, que o presente diminuiu. não consegui equilibrar tantos pratos, precisei soltar um deles, o que a psicóloga chama de “redirecionamento”, e eu só consigo chamar de falhar. sinto que me perdi e isso me dá vontade de fugir pra qualquer canto, só de lembrar das reações das pessoas, que me olham como se eu estivesse falhando de forma permanente — e isso dói porque eu me olho exatamente desse jeito também.
não existe atalhos ou manuais de instruções pra se sentir menos fracassado quando se desiste de algo grande, que custou muita vida. é como carregar um peso invisível, mas que está sempre lá. um luto que atravessa os dias enquanto a gente se esforça pra continuar sendo um adulto funcional, que não atrasa contas e se recusa a chorar no banheiro do trabalho.
mas a real é que a vida vai seguir em frente e se a gente não parar pra olhar de vez em quando, perdemos os momentos que nos seguram durante esses interlúdios, quando tudo vira bagunça e não existe tempo de verdade pra desmoronar.
essas talvez sejam minhas novas resoluções pros próximos meses: enxergar que já existe amor suficiente dentro de mim, me convencer que tudo bem mudar de ideia aos vinte e poucos anos e que preciso construir tudo de novo mesmo sabendo que a vida vai desmoronar outra vez em breve. pois é assim que as coisas são e ainda não existe um jeito de escapar desse labirinto versão loop infinito por completo.
sempre achei que só dava pra medir a felicidade de alguém pela quantidade de vezes que a pessoa dança sozinha na própria cozinha. eu tinha parado de dançar na minha fazia meses, mas essa semana, isso mudou. dancei don’t go away do oasis, e torci pra que a próxima pausa deles não seja tão longa.
pequenos avanços, é o mais perto que vou chegar de fazer as pazes comigo mesma por enquanto. e isso, é o mais perto também que vou chegar de sustentar o olhar no espelho como quem vê catedrais góticas: sem nunca desviar.
algumas semanas atrás, eu desisti de um sonho profissional que foi sonhado durante um tempão. e pode-se dizer que eu senti uma tristeza absurda. não sabia que era capaz de chorar tanto por tomar a melhor decisão possível pro meu momento atual. é estranho como a vida nos faz desmoronar de vez em quando, não é? principalmente quando a incerteza se faz presente. até nisso a vida surpreende. sinto que não é um “nunca” é só um “ainda não, não desse jeito”, tipo a volta do oasis. demorou, mas aconteceu. talvez esse seja o caminho. não existe roteiro na vida e a parte difícil de ser adulto é admitir que não temos todas as respostas de uma vez. acho que matilda do harry representou tudo que eu não consegui dizer durante esse tempo atravessado. tenho até pensado inclusive no que sobra da gente quando se tira a camada que um sonho ocupa. talvez não sobre tanto assim, e essa é a raiz de quase todas as ansiedades. mas isso é assunto pra outro texto.