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Nosso segundo encontro teve isso. Teve aquela falsa sensação de tranquilidade, aquele cenĂĄrio de cinema â onde, ironicamente, eu mal prestei atenção no filme. NĂŁo porque ele fosse ruim. Mas porque, entre as cenas na tela, havia outra histĂłria acontecendo em silĂȘncio: VocĂȘ. A gente.
E foi no escuro da sala que eu pedi pra levantarmos o apoio de braço, lembrando que o motivo era simples: quero vocĂȘ mais perto. SĂł nĂŁo contava com vocĂȘ retribuindo com carinho na minha perna. Confesso: estranhei. Achei que vocĂȘ estivesse me provocando⊠mas depois achei que estivesse tentando me aquecer. E aĂ fiquei sem saber â e isso sĂł aumentou minha vontade de descobrir o que, de fato, estava passando pela sua cabeça.
EntĂŁo eu lembrei que vocĂȘ mesma tinha dito que eu podia te beijar quando quisesse. E adivinha? Eu quis.
Me inclinei devagar. Te beijei. E vocĂȘ me puxou pela nuca, quase me colocando em cima de vocĂȘ. O mundo parou, o filme sumiu. Ficou sĂł o gosto da sua boca, a sua urgĂȘncia encaixando na minha. Era como se o tempo tivesse esperado por esse exato segundo. Como se nossos corpos dissessem "enfim".
Mas a gente ainda estava em pĂșblico. No cinema. E mesmo com esse detalhe insignificante chamado "decĂȘncia", eu confesso: se vocĂȘ me puxasse mais um pouco, eu nĂŁo prometo que teria te impedido.
Ficamos ali. Abraçadas. VocĂȘ continuava com a mĂŁo na minha perna. Eu com os dedos entrelaçados aos seus. E, por dentro, eu queria estar com a boca no seu pescoço, a mĂŁo sob sua blusa, o corpo colado no seu. Mas me contive.
Teve um momento que eu senti frio. E vocĂȘ me deu sua jaqueta â aquela que ficou gigante em mim. E mesmo assim, eu ainda tremia. SĂł que nĂŁo era mais sĂł por causa do ar-condicionado. Era por estar perto de vocĂȘ e querer muito mais do que poderia pedir naquele instante.
Porque aquela conversa no meio da madrugada ainda ecoa aqui. Quando vocĂȘ disse que estava com vontade de mim. Que ficava arrepiada, que fazia carinho por um motivo. Que meu cabelo cacheado era uma tentação. Que queria me puxar pela nuca. Que pensava em mim demais â e ficava com calor sĂł de imaginar.
E eu, Karine, aquela que prometeu dormir 100% vestida pra vocĂȘ ficar bem⊠confesso que menti.
Porque agora, cada vez que vocĂȘ diz que vai tentar manter a sanidade, eu penso em novas formas de te fazer perder o juĂzo.
E o mais engraçado? Ă que a parte mais perigosa disso tudoâŠ
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Enquanto eu seguia, ainda respondi uma Ășltima mensagem e guardei o celular. Foi aĂ que te vi. De longe. VocĂȘ, inquieta, parecia estar escrevendo algo que nunca chegou a me enviar â porque, antes disso, eu parei bem ao seu lado.
Foi tudo muito automĂĄtico. VocĂȘ olhou pra cima, se levantou num movimento tĂŁo rĂĄpido que eu achei que fosse cair quando o trem se moveu. Naquele segundo, eu nĂŁo sabia se podia te tocar, mas segurei sua cintura e pedi desculpa. Nem sei se vocĂȘ ouviu. Eu sĂł... fiz. Como se jĂĄ fosse instinto.
Foi aĂ que reparei no seu piercing embaixo dos lĂĄbios. Ele refletia a luz e me hipnotizava. Tentei, juro, me concentrar em qualquer outra coisa â nas janelas, no mapa da linha, no som das estaçÔes â pra vocĂȘ nĂŁo perceber que meu olhar sempre voltava pro mesmo lugar.
Falamos de algumas coisas... que honestamente nem lembro direito. Eu estava mais ocupada tentando nĂŁo te encarar demais. Tentando nĂŁo deixar o olhar te entregar. E, pra esconder isso, ficava olhando para fora do trem, como se o vidro fosse mais interessante que o brilho da tua boca.
Chegamos na estação. E como em um gesto involuntĂĄrio, deixei vocĂȘ ir na frente â quase como se te escolhesse lĂder da minha noite. âPinguinzinhaâ, eu pensei. E o apelido grudou e sempre lembrava quando eu olhava vocĂȘ andando. â€ïž
VocĂȘ parecia meio desconfortĂĄvel, e eu nĂŁo queria te pressionar. Queria te deixar Ă vontade, como quem sĂł quer que o outro fique, mesmo que nĂŁo diga nada. VocĂȘ disse que ficava quieta quando nĂŁo se sentia Ă vontade, entĂŁo presumir que nĂŁo estava. EntĂŁo pedi o carro do 99 pro nosso destino, mas na hora vocĂȘ nĂŁo ouviu. Fiquei sem saber como te chamar... e acabei tocando seu braço. Um gesto tĂŁo simples, mas cheio de hesitação â como quase tudo que fiz naquela noite.
No carro, percebi que vocĂȘ estava resfriada â ou quase isso. Perguntei, e sua resposta meio... sei lĂĄ desinteressada talvez, me fez pensar que talvez nĂŁo fosse o momento. Deixei passar.
No gastropub, deixei vocĂȘ escolher onde sentar. Tinha lugares maiores, com estofado nas janelas, mas vocĂȘ escolheu uma mesa do canto onde ficarĂamos frente a frente e eu pensei "talvez nĂŁo seja tao ruim" , logo vocĂȘ mudou de ideia dizendo ter achado o ligar perfeito e seguimos para um estofado perto da sinuca. E quando me chamou pra sentar ao seu lado, com aquela voz e jeito fofinho, me desarmei.
VocĂȘ disse que estava com fome, mas comeu menos da metade do lanche. Nenhuma de nĂłs deu conta da entrada nem do hambĂșrguer mal passado (que parecia cru!). Eu pedi um drink de manga, vocĂȘ de pera. Depois veio a ĂĄgua com gĂĄs â e o gelo invisĂvel que nos fez rir â, e mais um drink com cereja.
LĂĄ dentro nĂŁo fazia frio, e mesmo assim eu queria ficar perto de vocĂȘ o tempo todo. Quando vocĂȘ dizia que estava com calor, eu me afastava sĂł um pouco. Mas perto de vocĂȘ... eu sĂł queria fechar os olhos e dormir encostada. SĂł isso.
Em algum momento, vocĂȘ segurou minha mĂŁo. Eu fiz carinho. Fiquei reparando nela, notando como era diferente da minha, tao grossa. VocĂȘ me contou sobre seus trabalhos, sua rotina, sua correria. E eu sĂł queria ouvir mais. Enquanto isso, o jogo de futebol passava na TV â e vocĂȘ, que disse que nem gostava de futebol, parecia hipnotizada. E eu me perguntava: serĂĄ que ela nĂŁo estĂĄ entediada comigo?
NĂŁo queria te beijar ali, de repente. NĂŁo queria forçar algo que vocĂȘ talvez nĂŁo estivesse pronta pra dar. EntĂŁo comi. Me concentrei no lanche cru. Sorri. E segurei a vontade.
Fomos quase expulsas do lugar, com os garçons trazendo a comanda e jĂĄ varrendo o chĂŁo. Eu teria ficado ali a noite inteira. Mesmo em silĂȘncio. SĂł te dando carinho.
VocĂȘ ficou feliz quando eu disse que da prĂłxima vez quem pagaria seria eu, achei isso muito fofo e lembrei da figurinhaque vocĂȘ sempre manda. Coisas pequenas, mas que guardo com carinho.
Na volta, abri a porta do carro, me dirigir para sentar do outro lado, tentando facilitar o caminho, como quem quer que tudo seja leve. Foi aĂ que senti algo diferente. VocĂȘ segurou minha mĂŁo, eu deitei a cabeçaem seu ombro.
Durante a noite, vocĂȘ me surpreendia. Em cada gesto. Ăs vezes tĂŁo confiante, Ă s vezes tĂŁo tĂmida. Eu nĂŁo sabia se era vocĂȘ de verdade, ou se era vocĂȘ tentando corresponder ao que achava que eu queria. Mas era encantador. Tipo quando chegou a entrada e vocĂȘ tentou me dar comida da boca, admito que senti um pouco de vergonha. E quando me abraçou na estação e quando beijou meu pescoço.
Na estação, quando fomos esperar o seu trem, vocĂȘ me abraçou e encostou o rosto no meu pescoço. Sua respiração morna, tĂŁo prĂłxima, me deixava sem saber pra onde olhar. Eu desviava o olhar pra tudo â escada rolante, trilhos, pessoas. Qualquer coisa pra nĂŁo encarar o que eu queria.
Quando chegamos, eu disse que nĂŁo precisava me acompanhar na linha amarela. Era tarde. E seguimos para eu esperar seu trem contigo. E ali, naquele canto da estação, vocĂȘ me puxou. Ficamos perto. Muito perto. De novo, minha mente se dividia entre o desejo e o cuidado.
EntĂŁo vocĂȘ beijou meu pescoço.
E eu... congelei. Olhei pra vocĂȘ tentando entender. VocĂȘ pediu desculpas. E eu nĂŁo sabia se era brincadeira, impulso, vontade. Ou tudo junto.
Mas ali, mesmo sem saber de nada, eu sĂł queria te proteger. Do frio, do cansaço, da segunda-feira sem dormir. De mim mesma, talvez. Porque o maior esforço da noite inteira foi nĂŁo ceder ao desejo de te beijar. Porque eu nĂŁo sabia se vocĂȘ queria. E porque, mesmo querendo muito, eu escolhi te respeitar antes de tudo.
Mas entĂŁo seu trem chegou. E vocĂȘ, sem cerimĂŽnia, me pediu um beijo de despedida, do seu jeito fofinho irresistĂvel.
Na hora, eu nĂŁo hesitei. Atendi seu pedido, mesmo que tudo em mim quisesse estender aquele momento por horas. Senti seus braços ao meu redor, como se vocĂȘ quisesse me segurar ali, como se nĂŁo quisesse me soltar. E logo em seguida, seus olhos voltaram a me procurar â daquele jeito. Aquele jeito que vocĂȘ olha como se nĂŁo fosse sĂł olhar, fosse convite, fosse toque, fosse um âfica mais um poucoâ.
E eu? Eu nĂŁo queria te deixar ir.
Te beijei de novo, quase um protesto contra o relĂłgio e o trem parado Ă sua espera.
Foi aĂ que a realidade me puxou de volta. Lembrei que seu trem estava ali, parado, prestes a ir embora. Lembrei que jĂĄ era tarde. Que segunda-feira chegaria em poucos minutos. E mesmo assim, eu ainda tentei te convencer a embarcar â com o coração apertado e a mente em completo torpor.
Quando o trem fechou as portas com vocĂȘ dentro, eu fiquei ali. Meio sem saber o que fazer com o corpo, com a boca que ainda sentia o gosto do beijo, com as mĂŁos que ainda pareciam entrelaçadas nas suas.
Voltei pra casa igual a uma boba apaixonada. Cada estação parecia mais vazia, mas eu estava cheia. Cheia de vocĂȘ, da sua respiração no meu pescoço, da sua mĂŁo na minha, do seu piercing que ainda brilhava no fundo da minha memĂłria â e daquele seu olhar... que, mesmo quando se despede, ainda me chama de volta.