O ontem e o hoje que nos conecta (eu e meus “eus”).
Cada fase da vida nos traz a oportunidade de enxergar as pessoas, as situações, os momentos de uma forma diferente.
Valorizar o que é pequeno (ou grande), os momentos mais simples (e os mais complexos), a frase mais espontânea (e as mais rebuscadas) só vem com o tempo ... com aprendizados, maturidade (e olhe lá!).
O que ontem parecia um pesadelo, hoje é motivo de riso, nostalgia ou mesmo aborrecimento, tudo depende da maneira como encaramos e nos entregamos à tais emoções.
Fui uma adolescente atípica. Sempre tive convicções muito firmes sobre o que queria e faria da minha vida, ainda assim, fui acometida pelas explosões emocionais da fase mais complexa da existência humana e sim, arquei com todas as consequências relacionadas às explosões.
Apesar de não parecer, sempre fui tímida. A maneira espontânea, muitas vezes impulsiva e destemida foram formas que encontrei de lidar com a timidez e esconder o que realmente se passava dentro da minha cabeça.
Fiz teatro na época do ginásio, me dediquei inteiramente à algo que adorava naquela época e sim, fui vítima de bullying devido ao peso – pior – não só pelo público como pelo próprio professor. Quando saí do grupo (me recordo como se fosse hoje), numa determinada apresentação foi realizada uma homenagem à todos os participantes da “companhia”: rosas foram entregues um a um, com agradecimentos e frases de incentivo. A cada nome pronunciado meu coração disparava e eu, na minha ingenuidade pensava: “agora sou eu” mas ... foi anunciado o encerramento e meu nome não foi citado (era a primeira vez que eu não participava do espetáculo mas, havia permanecido na coxia até pouco antes do início da peça). Isso ainda me dói, confesso, mas pela menina que saiu do Cacilda Becker com o coração apertado e chorou escondido por sentir mais uma vez aquele tipo de dor. Não, nunca mais voltei. Nem mesmo pra falar com o “professor”.
Esse foi um dos diversos eventos que me ajudou a consolidar as máscaras utilizadas no dia a dia. Imagina se eu iria demonstrar pro mundo que aquilo me afetava? Jamais! Então eu sorria, como se nada tivesse acontecido.
Eu sempre fui “moleca”. Sempre com tendências que fugiam à regra menino/menina. Não curtia muitas as bonecas, adorava soltar pipa, tinha bolinhas de gude e batia bafo. Vivia com o joelho ralado porque tinha caído na rua. Ponta do dedão do pé faltando. Meus amigos eram eles, e não elas. Um dia minha mãe me comprou uma Barbie (roqueira, olha a ironia) – foi um presente surpresa porque na realidade eu tinha escolhido um jogo de relógios que trocava as pulseiras (naquela época era 01 presente só + o do Papai Noel, que na verdade era o que a empresa onde meu pai trabalhava dava pros funcionários). Um dia, brincando com a vizinha, ela tentou colocar a roupa na Susie (quem conhece sabe que as proporções são bem diferentes), rasgou a calça da minha boneca e fingiu demência. Quando descobri meu mundinho caiu, fui tirar satisfação e acabei com a amizade que já não tinha lá uma fundação muito firme (só voltamos a nos falar anos depois).
Minha amiga sempre foi minha mãe. Minhas referências femininas sempre vieram da minha mãe, ademais, amizade com “elas” só foram consolidadas muito tempo depois e olha, dá pra contar nos dedos de uma única mão quem permaneceu e ficou de verdade.
Nunca sonhei em casar, ter filhos. Nunca acreditei em “príncipe encantado” e muito menos achava que a “primeira vez” tinha que ser “especial” com alguém “especial” (e não foi).
Fiz terapia por muitos anos para me entender e aprender a soltar minhas “amarras” (terapia holística, nunca acreditei e nem me adaptei às metodologias convencionais). Quando comecei não lembrava praticamente de nada da minha infância, possuía tendência à “implosão” e não derramava uma lágrima por mais puta/magoada/ferida/chateada/emocionada/feliz que eu tivesse.
Hoje estou aqui, casada, mãe de uma princesa de 3 anos e meio, mãe de coração de um peludinho rabugento de 5 anos, capaz de colocar em palavras as emoções e situações mais “bizonhas” sem que a lembrança me adoeça e ... feliz.
Valorizar o que é pequeno (ou grande), os momentos mais simples (e os mais complexos), a frase mais espontânea (e as mais rebuscadas) só vem com o tempo ... com aprendizados, maturidade (e olhe lá!).
O passado e o presente têm conexão direta. Ele (o passado) que nos permite fixar fortes e profundas raízes para que lá na frente nossos filhos saibam que mesmo não sendo fácil é possível e vale a pena cada instante. Para que vejam que todo mundo tem dificuldades, medos, lutas internas e externas e que cada uma delas é que nos define no agora.
É a conexão com os antepassados, com os eus de ontem, de hoje e de amanhã. Porque muito de mim sobreviveu às trovoadas se apoiando nos esforços já vividos e nas lutas vencidas e passadas à diante ... ou seja, eu vivi a minha dor e matei os meus leões (alguns deles) sabendo que já haviam conseguido antes de mim. Muitos leões ainda estão por vir, mas na minha mente, esse é o grande aprendizado.
Em 2013 tatuei as costas com uma Iggdrasil (ou Árvore Celta). Pra mim, assim como a Fênix, a simbologia e o poder que ela traz foi tão certeira, mas tão certeira que se tivesse que escolher outro desenho a escolheria denovo (mas dessa vez a faria ainda maior).
Copa frondosa, raízes profundas e tronco – coitado – tronco maluquinho com tantas informações (emoções, sentimentos, decisões, atitudes, conceitos, etc etc etc) que vem e vão na velocidade da luz de um lado pro outro que olha ... só por Deus!! Só por Deus ...