O bico nos lábios de Astrid era quase infantil quando se materializou na porta do quarto da irmã. Ela entendia todos os porquês de Emily ter rejeitado o seu convite para o baile; e também não queria forçar a irmã a nada, mas também não podia negar que teria adorado a experiência de passar um tempo dançando com a mais velha. “Ok, você não vai no baile, mas você vai me ajudar a ficar bonita.” Balançou o cabide de onde o vestido branco pendia, quase implorando com os olhos para que Emily dissesse que sim. “Você arruma meu cabelo? Pretty pleeeease?”
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Astrid foi surpreendida pelo olhar (não qualquer olhar, aquele olhar) de Emily quando chegou em casa com as compras do supermercado. Limpou a garganta, largando as sacolas sobre a mesa da sala e caminhando até a irmã com um sorriso amarelo. Não fazia ideia do quê tinha feito dessa vez, mas conhecendo a si mesma, provavelmente tinha feito alguma coisa. Ela era Astrid, afinal. “Boa tarde, irmã mais linda do mundo. Única que eu tenho. Insubstituível.” Riu sem humor, literalmente, uma daquelas risadinhas: ha-ha. Chocolate decidiu aparecer, esfregando-se nas pernas da dona e ronronando. Astrid se abaixou para pegá-lo no colo; talvez se Emily a visse com o gato achasse a cena fofa o suficiente para não brigar com ela? “Seja lá o quê for, eu posso explicar. Juro. Não fiz por mal. Nunca faço. Sempre é acidente, tipo, noventa e nove porcento das vezes é acidente. Eu sou um anjo.... por dentro... você sabe.” Mordiscou o inferior, quebrando a cabeça à procura de algo que pudesse ter acontecido. Será que Emily descobrira sobre o acidente com o Tinder-catfish de Pierre? Não seria possível. Só Callie sabia daquilo! E Callie nunca contaria para a irmã... Ou contaria? De repente, Astrid ficou pálida. “Eu juuuuuuuuro que posso explicar.”
“Ems, eu queria começar dizendo que você é uma irmã muito legal, linda, maravilhosa, inteligente, querida, especial, melhor irmã do mundo, eu não iria querer outra. A melhor irmã que eu tenho, mesmo que eu tenha só uma, é a melhor porque uma vez eu tive umas irmãs imaginárias, quando você tava longe...” Astrid começou o discurso um pouco antes das Sveen entrarem no restaurante. Já estavam na porta, não haveria como darem para trás, mas ainda não tinha explicado o verdadeiro motivo de ter trazido Emily no Beach Lounge naquela noite. Talvez, nem ela soubesse o quê tinha a motivado: eram as sobremesas de graça mesmo, ou a chance de colocar Emily para conhecer alguém novo, só para variar? “Eu também queria dizer que tem algo muito maior que nós, sabe? Tem algo... que você vai entender... mas... é algo importante. Eu não dispenso doce de graça. E é muito importante que você tenha isso em mente.”
Ela segurou a mão da mais velha, conduzindo-a entre as mesas enquanto a ansiedade borbulhava no âmago. Emily entenderia sobre as sobremesas. Ela não ficaria brava. Ela não sairia correndo e deixaria Astrid com cara de tacho... Certo?
Limpou a garganta, parando em frente ao lugar onde Thomas estava sentado, então soltou a mão de Emily e fez um gesto na direção do homem, como se o introduzisse. “Emily, esse é o Thomas. Ele é o seu namorado pela noite.” Abriu um sorriso amarelo, trocando olhares entre Thomas e Emily. Se estivessem no verão, Astrid teria suado de nervosismo. “Thomas, essa é a minha irmã Emily, sua namorada pela noite.” Trancou a respiração. “E eu sou a acompanhante de vocês... Ou algo do tipo. Enfim, somos uma família pelas sobremesas de graça!”
Astrid não precisava dar nenhuma explicação de seu comportamento para Emily — vinte e dois anos depois, a mais velha já deveria estar mais do que acostumada a, por exemplo, ser abruptamente puxada pelo braço no meio dos discursos, e para longe da mesa delas. “Se abaixa, Ems.” Falou em um quase sussurro, curvando o corpo enquanto se certificava de que nenhum dos guardas de armadura veria o quê a mais nova estava prestes a fazer; tinham sorte, também, que todos pareciam distraídos demais na mesa dos noivos, especialmente com a comoção causada por Neil. Já estavam fora do salão quando a mais nova abriu uma porta que dizia ser de uso exclusivo para funcionários da cozinha e, rapidamente, puxou @cantlerigo para dentro. “Você consegue sentir o cheirinho?” Perguntou animada, suprindo um daqueles seus gritinhos finos. “Eles tão guardando chocolate aqui!” Estendeu a mão até o interruptor, acendendo a luz da dispensa adjacente à cozinha. Uma fonte de chocolate apareceu logo em frente à elas e o rosto de Astrid estampou o maior sorriso de todos.
❄️ ─ princess anna & queen elsa: arendelle christmas traditions. flashback to a long, long time ago.
Anna não se lembrava da última vez que elas tiveram um Natal de verdade em Arendelle, pelo menos não no castelo. A sensação de que, por uma vez na eternidade, teriam uma grande festança para comemorar a data que era característica do inverno, junto à sua pequena e nova definição de família, não podia ser descrita em palavras, nem mesmo quando a princesa costumava ser cheia delas.
O único problema era que nem ela, e nem Elsa, sabiam como organizar as tradições para a festa de Natal que aconteceria naquela noite no grande salão de bailes. Durante a infância, sem poder sair para o vilarejo e ver como o resto dos habitantes do reino costumavam celebrar, tudo o quê Anna ouviu falar dos costumes natalinos tinham vindo das histórias que os funcionários do castelo contavam para ela. A pequena princesa de tranças ruivas adorava sentar-se com eles na cozinha, logo depois da janta quando os pais se retiravam para os seus aposentos, e ficava escutando as aventuras das cozinheiras embalando presentes e cantando músicas por horas a fio, até que enfim pegasse no sono no colo de uma delas.
Várias vezes, ela tentou entrar no quarto de Elsa para compartilhar com ela aquelas histórias, talvez convidá-la para juntar-se com eles na cozinha, mas nunca podia. Ela não via a irmã nem na hora da ceia — uma medida cruel dos pais e que Anna só perceberia anos mais tarde — e, no dia seguinte, quando acordava para abrir os presentes deixados pelo bom velhinho, ela sentia um vazio no coração: Elsa nunca estava lá, não importava quantas vezes ela colocasse na “lista de pedidos para o papai Noel” que tudo o que desejava era vê-la novamente.
Agora, depois de anos, elas estavam juntas de novo; e só o fato de que passariam a noite juntas — acompanhadas de Kristoff, Olaf e Sven, claro, além dos moradores do reino — fazia o corpo inteiro de Anna reverberar em felicidade.
Saltitante como de praxe, ela deu duas batidas contra a porta do quarto da mais velha e, diferente das outras vezes em que fizera a mesma coisa no passado, sentiu os lábios se alargarem num sorriso ao anunciar: “Elsa! Você quer procurar tradições de Natal? A festa é hoje à noite e nós não temos nada ainda! E eu não sei onde o Kristoff se enfiou. Nem o Olaf. Sério, a gente precisa parar de deixar o Olaf solto por aí! É a segunda vez essa semana que ele SOME.”
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“Nós vamos entrar, sim!” Materializou-se na frente da irmã com dois algodões doce, um rosa e outro azul, em cada mão. “Tá todo mundo dizendo que é a tenda mais legal do circo, então nós vamos juntas.” Estendeu o braço destro para a irmã, oferecendo o doce cor-de-rosa. Ela sempre preferira os tons de azul e verde, até nas comidas.
Era verdade, a Sveen mais nova não via a hora de entrar na tenda preto-e-branca. Não só porque todos pareciam sair dali entusiasmados, mas porque ela recebera uma mensagem de Daniyal falando que o lugar era como uma viagem às mil maravilhas. E, bom, Astrid logo assumiu que ele falava de alucinógenos ou coisa do tipo, despertando a curiosidade da loira. Tinha uma primeira vez para tudo.
O primeiro estrondo era sempre o mais difícil. Astrid odiava o barulho tanto quanto detestava saber que a tempestade estava lá fora.
Mesmo que ela e a irmã estivessem protegidas, ou melhor, mesmo que Emily estivesse a salvo, ainda era aterrorizante. Quando se tratava da mais velha, Astrid seria capaz de largar tudo só para protegê-la, fosse de uma tempestade, fosse de algo pior, porque não havia nada mais genuíno do que o carinho que cultivava pela irmã.
Foi por isso que, instintivamente, a mão procurou pela dela enquanto se encolhia, ficando cada vez menor. Lá fora, o vento zumbia de uma maneira assustadora, a janela tremulava e mesmo o seu gato, Chocolate, que não gostava tanto assim de abraços, havia pulado para o sofá e se aninhado entre elas.
“Quanto tempo você acha que isso dura?” Perguntou para Emily, a voz em um quase sussurro. Já estavam no escuro há alguns minutos, dependendo de algumas velas espalhadas e as lanternas do celular. “Eu queria muito que a gente pudesse pelo menos assistir a um filme pra não ter que ficar ouvindo esse barulho insuportável do vendo...” Puxou as pernas contra o corpo, o coração batendo forte.