É estranho, assumo, chegar em sua casa, ter a porta aberta, pedir o cinzeiro e acender o cigarro. Te olho, sorrio, passo pelo corredor, deixo a bolsa no seu quarto. Oi para os gatos, não posso me esquecer. Você lhes dá comida, eu os agrado, sinto como se fossem meio meus. Uma cerveja? Não, obrigada, vamos ouvir música, meu bem. A porta do quarto é fechada, ficamos uns segundos olhando pro computador, você na cadeira, eu em seu colo. Que música? Não sei. Como tá indo o trabalho? Tão me deixando louco, mas acho que dessa vez vai. Assim espero. Me beija? Beijo. Nos beijamos, nos abraçamos, acabamos escolhendo qualquer soul que apareça na lista primeiro.
Nos jogamos na cama, você por cima, me beija, me provoca, eu fico ofegante, te beijo, te provoco, rebolo, e você enlouquece. O melhor sexo da vida, eu disse. Você riu. Fumamos cigarros, suados, descabelados. Mais música? Quero dançar pra você. Danço, você não resiste, me agarra, voltamos pra cama. Dois orgasmos, ou um em conjunto. Nos beijamos, mais cigarros. Pós sexo somos nós, acabados, conversando e filosofando sobre a vida. Eu nem lembro se tem alguma coisa da qual me esqueci de ter vergonha. De verdade, eu nem ligo. Ali tem paz, tem sossego, tem liberdade. Meu coração tá quietinho, tranquilo, não queremos sair dali. Ir embora? Nunca. Quero passar a noite. Queremos. Dormir abraçados, ou nem dormir; to com vontade de novo. Aguenta a terceira? Sem dúvida. Lá vamos nós de novo, e parece ainda melhor que a primeira, ainda que estejamos cansados, acabados, ainda mais suados do que antes. Banho? Vai rolar uma quarta, certeza. Vou precisar do secador. Mais beijos, mais risadas, mais cigarros. Acho que agora aceito a cerveja. Vou buscar. Porque gosta de dançar pra mim? Me sinto uma deusa. Você sorri. Sua resposta foi perfeita. Deixa eu ouvir sua voz, quero mais. Você tá cantando bonitinho. Você ri. Um dueto desajeitado agora, mas acho que ficou fofo. Eu sou romântica, acho que deu pra perceber. Eu também sou, mas nem sempre demonstro assim, de cara. Nem ligo. Será que vai durar? Não sei, prefiro não esperar nada. To amando aproveitar cada segundo. Eu também, então deixa assim. Anoiteceu, a janela tá aberta e eu to com frio. Você me abraça. Eu não quero ir embora, anjo. Não quero que vá, baby. Será que posso te machucar? Não sei, acho difícil, talvez me deixe triste, frustrado. No que acha que pode me machucar? Não sei, não correspondendo às expectativas, talvez. Mas eu não tô esperando nada. Melhor não mentir, hein? Não to mentindo, cacete. Você gargalha. Tá bom, deixa quieto. Isso mesmo, cala a boca, eu quero te beijar. Eu falo… muito… né? Sim, cala a boca e me beija. Você para de falar e me beija. Não quero sair dali, não quero me vestir. Não levantaria da sua cama por dias, se fosse possível. Eu trabalho amanhã, baby. Eu sei, e te faria café da manhã. Você sorri, eu sorrio. Te agarro, você fecha minha calça. Te abraço. Não quero ir embora, puta que pariu. Então eu te sequestro. Isso vai dar merda. Vai mesmo. Melhor eu ir. Sentir saudade é bom, baby. Quando voltar vai ser assim. Aposto que vai ser melhor. Um beijo de despedida.