Eu não costumo falar muito sobre mim. Não costumo explicar minhas dores, meus traumas ou os motivos que me transformaram em que sou hoje. Mas quando alguém me conta sobre os próprios problemas, algo muda dentro de mim. Eu viro um bobo da corte, um contador de histórias ruins, disposto a fazer qualquer coisa para arrancar um sorriso de um rosto afogado em tristeza. Não faço isso porque me faz bem. Na verdade, na me traz alegria alguma. Eu simplesmente não me importo mais tanto com o que eu sinto. Já conheço minhas ruínas de cor. Sei onde cada rachadura começou, sei quais lembranças ainda doem quando a madrugada fica silenciosa demais. Talvez por isso eu goste de ouvir as pessoas. Conhecer suas histórias, seus traumas, seus medos. Talvez porque, ao ajudar alguém a carregar um pouco do próprio peso, eu esqueça por alguns instantes do meu. E mesmo sabendo que quase todo mundo carrega alguma morte por dentro, eu ainda procuro conversas, ainda procuro pessoas. Não para me salvarem, mas para que ninguém precise se sentir tão sozinho quanto eu já me senti.